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N@escola - O ensino médio conectado


Em Minas, os alunos terão computadores com Linux e acesso em banda larga. 
Anamárcia Vainsencher

Em Minas Gerais, das 17 mil escolas, 4 mil são estaduais. O quinhão da educação é de R$ 4 bilhões anuais, 29,5% do orçamento estadual total; 60% do funcionalismo são do setor. O nível do ensino está bem situado no ranking geral do país, mas o acesso à internet das escolas estava abaixo da média do Sudeste, conta a secretária Vanessa Guimarães Pinto, da Educação. Mudar esse quadro com enormes desigualdades não foi fácil. O sul do estado tem IDH alto. O norte, é como o sertão baiano. “É o próprio Brasil, com todos os tons de cinza, desde o Vale do Jequitinhonha, até Poços de Caldas,” ilustra o consultor Ivan Moura Campos. Atenuar tamanhas diferenças era uma das pré-condições para informatizar as escolas, diz Vanessa. Em alguns municípios, foi preciso fazer tudo ao mesmo tempo: prover água, luz, instalações físicas...E informatizar.

O projeto Escolas em Rede, que teve investimento de R$ 38 milhões em 2006, R$ 12 milhões neste ano, vai dotar todas as unidades de ensino médio com laboratórios de informática, a começar pelas escolas-referência. Transformar esse projeto em realidade é uma tarefa a muitas mãos. Entre elas, as do professor de Ciência da Computação aposentado da UFMG, ex-coordenador do CGI, ex-diretor do Icann, o hoje consultor Ivan Moura Campos. Em Minas, relata, já existia o conceito de escolas em rede, quando surgiu a vertente da informatização de escolas. Mas, destaca, o processo privilegiou primeiro gestores, depois professores, por fim alunos, o contrário do que muita gente faz, que é primeiro colocar computadores nas salas de aulas, o que deixa professores inseguros, diretores com medo, e resulta em equipamentos  trancados num canto. “Se professores não se envolvem, ou ficam inseguros, sabotam a iniciativa. Os meninos, como se sabe, aprendem tudo rapidinho. A ordem dos fatores foi uma providência inteligente”, analisa Ivan. Na gestão, emenda a secretária, o grande desafio era mudar práticas administrativas, não só em função da ferramenta, mas de seu uso.

Na visão do professor João Filocre, secretário adjunto da Educação, o problema central era melhorar a qualidade do ensino. O jeito tradicional de capacitar professores nos conteúdos específicos (Português, Matemática, História, Geografia) não funciona. “Gasta-se muito, os resultados são pífios”, ensina. Isso porque os professores têm concepções cristalizadas de como dar aulas, e a capacitação convencional não modifica em nada uma prática que acham confortável. Assim, observa, o caminho da tecnologia não foi uma questão de modernidade, de ficar up-to-date, mas um modo de colocar uma cunha pela retaguarda do sistema. Como ninguém dominava esse novo campo, o jeito foi aprender, e não só editor de texto ou planilha. “Esse caminho, além de viabilizar a melhoria nas disciplinas clássicas, abre novas perspectivas aos professores, e não precisamos bater de frente com eles”, arremata Filocre.


A capacitação de professores
se torna obrigatória em 2008
Além da introdução à informática, foi feito um programa de capacitação em qualificação básica para o trabalho: 12 cursos, com carga horária de 40 horas cada, dois por ano. Em 2007, as escolas ainda têm a opção de não selecionar professores para os cursos; em 2008, será mandatório fazê-lo. A formação inclui, entre outros itens, montagem e manutenção de computadores, web design, organização e administração de redes, desenho animado em 3D, tratamento de som e imagem. Os cursos serão oferecidos aos alunos do ensino médio, mas sem contratação de mais professores. As escolas devem escolher três professores para cada um dos 12 cursos, todos presenciais, em Belo Horizonte. Aos professores cabe decidir como distribuir sua carga de 18 aulas. A capacitação começou há um ano, e, no final de 2007, haverá 12 mil professores capacitados (2,7 mil pelo Instituto Hartmann Regueira, 9 mil pelo Senac). Os professores também podem estudar Linux com a Intel. Até agosto, 30 mil alunos do ensino médio freqüentavam os cursos opcionais de informática.

Tudo tinha de ser feito sem tirar os olhos do controle de qualidade e dos custos, de acordo com a secretária estadual de Educação. Nesse sentido, segundo Ivan, a Secretaria decidiu recorrer, via parceria público-privada (PPP), ao Instituto Hartmann Regueira (IHR), Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) com a qual assinou termo de parceria (espécie de contrato), para o desenvolvimento de um sistema para assegurar o cumprimento das metas traçadas. O IHR, explica a diretora-executiva Cecília Regueira, é especializada na gestão de projetos sociais, via ações de responsabilidade social. Na sua área de atuação, o instituto presta consultoria, dá capacitação, faz articulação/mobilização e sensibilização para responsabilidade social.

A gestão é crucial na implantação do Escolas em Rede porque “toda a administração estadual é voltada para resultados,” ressalta a secretária Vanessa. No caso, o desempenho dos meninos nas avaliações nacionais. Minas está em primeiro lugar no ensino fundamental, diz, acrescentando que escola boa é aquela onde o menino aprende. Na Olimpíada de Matemática, exemplifica, dos 17 milhões de inscritos, 2 milhões são de Minas. O Estado premia em dinheiro os medalhistas e seus professores. A secretária entende que, para planejar sem desperdício, é fundamental informatizar. Ter ganhos de eficiência sem custos adicionais. Minas Gerais gasta R$ 1,2 mil/aluno/ano, o 16º menor dispêndio do país, para um estado que está no topo de desempenho. No início, admite, a gestão foi feita “no muque”.

Desenhado o projeto, restava saber como conectar 4 mil escolas num estado tão desigual. Ivan diz que se montou uma peça jurídico-técnica, um edital centralizado na Secretaria da Educação, como se fossem 4 mil editais. Com isso, não teve um ganhador único. No norte e nas áreas rurais, a solução satélite é da Oi/Telemar e da RuralWeb; nos grandes centros e em cidades de IDH mais alto, a conexão é via ADSL (Velox), ou infra-estrutura de TV a cabo. Para informatizar, não havia dinheiro para adotar o PC completo. Por isso, frisa, ganhou a solução Metasys (veja box). Quanto ao software, era seguir a diretriz do governo do estado, de fugir de sistemas proprietários. “Por que Linux? Por uma razão puramente econômica. Nossa escala é grande demais, e pagar licenças para um parque de 50 mil micros novos não cabe no bolso”, enfatiza o professor Filocre. Para Ivan, o Escolas em Rede é uma iniciativa que já deu certo, e cujos resultados serão colhidos a médio prazo. Os indicadores todos são muito bons.


Projeto a muitas mãos

A professora Danielle Cristina Trindade, de Língua Portuguesa, está em plena aula  de leitura e produção de texto. A moçada da 7ª série da Escola Estadual Professor Leon Renault, em Belo Horizonte (MG), pesquisa no Google para escrever sobre racismo. Nessa turma da manhã, a maioria dos alunos tem computador em casa, em geral com conexão em banda larga. Anselmo, 13 anos, acha mais fácil entender as aulas de Português na internet. Luiz Carlos, da mesma idade, gosta mais para estudar História, mas diz que também ajuda um pouquinho em Matemática. Ele é o mais velho dos quatro irmãos de uma família, em que a mãe é vendedora autônoma, o pai, carteiro. Em casa, a conexão é Velox.

Em Minas Gerais, há 440 escolas-referência de ensino médio (e o mesmo número de unidades a elas associadas), classificação obtida por seu desempenho, medido pelo dos alunos. A Leon é uma delas, mas é uma exceção, porque tem só o fundamental. Com cerca de 2,4 mil alunos, fica no terreno da Secretaria estadual de Educação. Nela, foi instalado o primeiro laboratório da rede estadual, há quatro anos. Hoje, tem dois. “Porque sou pidona”, se apressa a dizer a diretora Maria de Lourdes Rodrigues Fassy, Lurdinha.

Na casa de Marco Aurélio, 12, o computador não tem conexão; ele o utiliza para digitar trabalhos e jogar. Na escola, curte mais navegar pelas aulas de Geografia. Thais, 13, não sai enquanto não consegue falar. Ou melhor, ler o texto sobre racismo que acabou de escrever. Sente falta de computador em casa. Hoje, já diz com segurança que vai cursar Direito, com ênfase em Administração. O pai é chefe do departamento financeiro da Santa Casa, a mãe, vendedora no BHShopping. “Gosto de escrever. Computador em casa facilitaria a vida, eu ganharia tempo para pesquisa. Hoje, uso a Barsa, em papel. A família não compra computador porque a grana não dá”, lamenta.

Lurdinha não esconde o orgulho que tem da Leon. “No ano passado, oito alunos da 6ª foram diplomados na Olimpíada de Matemática. Muitos têm bolsas no Pitágoras (rede privada)”, diz. Entre “suas” crianças, muitas vêm de bairros distantes. Na comunidade do Leon tanto há crianças de abrigo (cerca de 20), como as que chegam de carro importado. Ainda em 2007, há planos para abrir os laboratórios de informática à comunidade.


MetaSys: Linux nas escolas.

Era uma vez o projeto Computador Popular, nascido e criado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que teria dinheiro do Fust para universalização do acesso. Foi para a geladeira, de onde foi tirado pela gestora de fundos FIR Capital, capitaneada por Marcus Regueira e Guilherme Emerich. (Esses dois mais Ivan Moura Campos eram do projeto do Computador Popular; depois, partiram para o desenvolvimento da ferramenta de busca Akwan, comprada em 2006 pela Google). A mesma FIR administrou o aporte de capital recebido pela empresa mineira International Sys e para lá levou o projeto do Computador Popular, junto com cerca de 12 especialistas em Linux da UFMG.

A Sys se concentra no software e estabelece parcerias de hardware, conta o presidente Paulo Maciel. Começa a desenvolver um sistema baseado na distribuição Open Suse, sobre a qual construiu um sistema operacional, o Metasys, que interopera com Windows. A Sys é uma distribuição de valor agregado, diz seu presidente. Porque, sobre o Open Suse, colocou novas camadas: tecnológica, no conceito smart client que busca o sistema operacional no servidor; um componente de software que transforma, por exemplo, um 486 em cliente inteligente; a camada de administração; de atualização; layer de monitoramento; de softwares aplicativos; de softwares pedagógicos.

Parceira da Intel desde 2004, no ano passado, a Sys foi convidada por ela para desenvolver a versão Linux do Classmate para o projeto da Secretaria de Educação de Minas. O sistema educacional é integrado pelo EduSyst server (conjunto de 16 aplicações para administração das escolas); MetaSys Monitor (destinado aos administradores de rede para controle e gerência de informações do ambiente computacional). Na primeira fase do Escolas em Rede, foram contratados mil sistemas para as 446 escolas-referência. E o  EduSyst Desktop (conjunto de aplicativos para auxílio ao desenvolvimento de atividades pedagógicas e didáticas do ensino fundamental e médio).


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