Cyberelas: “abóbora, nunca mais!”
Encontro reúne, no Rio, comunicadoras que atuam em rádios comunitárias e telecentros.
Rosane de Souza

Unidade de rádio-telecentro
em Campestre (AL) Cemina — Comunicação, Educação e Informação em Gênero comemorou, no X Encontro da Rede de Mulheres no Rádio, realizado nos dias 2 e 3 de julho, no Rio, os resultados do programa de capacitação de 29 comunicadoras populares em todo o país, com maior abrangência no Norte e Nordeste, por se tratar de regiões que ainda utilizam o rádio como a principal fonte de transmissão de informações para a população. Através da Rede Cyberela, essas mulheres foram habilitadas pelo Brasil afora a se apropriar dos meios de produção de rádios digitais, das quais 24 seguem tocando o projeto e 15 lideram hoje os chamados rádios-telecentros.
Eliane Nascimento da Silva, de Palmares, na região da Zona da Mata Sul, em Pernambuco, é uma dessas mulheres. Há dez anos, de 11h às 12h, ela e mais seis mulheres pilotam a transmissão diária da Rádio Mulher, cuja principal preocupação continua sendo informar ao público feminino os seus direitos, particularmente no campo da sexualidade e reprodução, no município que abriga, ainda, o maior projeto de autogestão dos trabalhadores: a usina de cana-de-açúcar Catende. Não é uma tarefa fácil. Além da luta para conseguir o horário numa rádio FM comercial, a um custo considerado alto para os padrões locais — R$ 1,2 mil mensais —, essas mulheres tiveram que travar uma luta insana para conseguir fazer o sonoplasta perder o ar de superioridade, entender o programa e aceitar receber ordens femininas.

Cemina: rádios telecentros
pilotados por mulheres As mulheres pernambucanas terminaram desistindo do sonoplasta. “Ele utilizava o nosso desconhecimento do mundo digital, para não fazer as coisas como a gente queria. Dizia sempre com aquele ar de autoridade masculina que a gente não sabia lidar com a tecnologia. Um dia, mandei ele embora e assumi a tarefa. Ele não me ensinou a fazer nada, mas aprendi a fazer tudo, desde a montagem do programa até a edição. Só não faço a operação de mesa”, contou Eliane, em sua primeira visita ao Rio de Janeiro, cidade que a surpreendeu: “Eu não sabia que o Rio era tão fundamentalista”, disse ela, referindo-se à reação dos cariocas à ocupação policial do Complexo de Favelas do Alemão.
É um mundo admirável e novo. Afinal, pesquisa da Fundação Perseu Abramo sobre a presença das mulheres nos espaços públicos e privados revela que 72% das brasileiras nunca utilizaram um computador, 86% não tiveram qualquer contato com a internet e 30% não sabem do que se trata. Exatamente por isso, o projeto Rede Cyberela começou pelo rádio.
“O rádio é uma mídia que elas conhecem e usam. Ao compreender que a informática, a internet e os softwares de edição de áudio podem ser usados para aperfeiçoar o trabalho surgiu a motivação para aprender”, afirma Thaís Corral, coordenadora geral do Cemina e uma das gestoras da Rede Cyberela. “Hoje, já avançamos no sentido de formar uma rede de capacitação online, para a produção de peças de áudios para rádio”, assinala Madalena Guilhon, atualmente, também à frente do Fundo Ângela Borba de Recursos para Mulheres, ONG baseada no Rio de Janeiro.

Silvana Lemos, coordenadora do projeto, afirma que a Rede Cyberela não beneficiou apenas as rádios, ao dotá-las de computadores e softwares. “Ela fez uma verdadeira revolução nas vidas dessas mulheres. Simplificou o trabalho e melhorou a qualidade de produção dos programas”, disse. Outra experiência compartilhada no encontro das mulheres radialistas, no bairro de Santa Tereza, foi o da Rádio Jagube, que fica na Vila Céu do Mapiá, vilarejo perdido no meio da Amazônia, que reúne 500 seguidores do Santo Daime. “A vila fica a um dia e meio de canoa de Boca do Acre”, localiza Fátima Santágata, diretora de comunicação da rádio e da ONG Guardiões da Floresta, acrescentando que, se o trajeto for feito de voadeira, encurta para a sete ou oito horas de viagem.
Segundo Fátima, a Rádio Jagube e o telecentro Nova Idéia na floresta se tornaram a única janela aberta para o mundo dos “caboclos” da região. Ela afirma que a rádio, que foi incorporada ao telecentro, instalado em uma casa de madeira de dois andares, transmite programas sobre o acervo medicinal da floresta, mas também leva os caboclos a viajarem pelo mundo através do “Estação Desembarque”, que conta em detalhes passeios turísticos por cidades tão distantes quanto desconhecidas, a exemplo de Marrocos. No outro ponto do Brasil, no Rio Grande do Sul, outra rádio-telecentro foi idealizada para incluir no mundo da internet os moradores de rua de Porto Alegre.
Além disso, na avaliação das comunicadoras, o programa livre de edição é muito bom, mas o de montagem “deixa a desejar”. O outro desafio é garantir a sustentação tecnológica e econômico-financeira dos rádios-telecentros a longo prazo. Por isso, cinco dos 15 empreendimentos foram selecionados para iniciar projetos piloto de futuros empreendimentos comerciais, como gráficas de conveniência.

Locutora Rádio Novo Ar,
São Gonçalo (RJ) “É hora de dar treinamento específico de manutenção de equipamentos, como forma de geração de trabalho e renda, e de gestão dessas tecnologias, para que as mulheres se capacitem na implantação de gráficas locais. Serviço que não existe nos locais em que atuam”, enfatiza Thaís Corral. O caminho da busca de recursos já vem sendo cuidadosamente traçado. Afinal, é regulamentado que 2% da receita bruta de grandes empresas podem ser deduzidos do Imposto de Renda e revertidos para projetos voltados para o benefício de mulheres e adolescentes.
As rádios-telecentros escolhidas para o projeto piloto são as dos municípios de Nazaré da Mata (PE); Campestre e Boca da Mata (AL); Pintadas e Lençóis (BA). As comunicadoras aceitaram o desafio de atingir as metas de sustentabilidade econômica e tecnológica, para depois replicar a experiência para outras cyberelas, por meio do portal da Rádio Fala mulher. Enfim, entoam o refrão: “abóbora, nunca mais!”








