Ver ajuda a aprender
Visualizar a formação do feto num sistema virtual complementa a leitura, e aumenta a disponibilidade do professor. Anamárcia Vainsencher

Um corte para ver o olho de dentro
- detalhe que, sem movimento, não
dá a mais pálida idéia do que seja
o P3D, um sistema virtual em
terceira dimensão (3D). Rotação? Translação? Que tal ver a terra girando sobre seu próprio eixo, ou em torno do sol, ao invés da tradicional decoreba? Como os especialistas que o desenvolveram, as escolas (poucas, ainda) públicas e privadas que conheceram o P3D acreditam que a visualização facilita o entendimento e a compreensão dos assuntos estudados. O P3D é um software de realidade virtual cujos conteúdos de biologia, geografia e química (baseados no Plano Curricular Nacional) se destinam ao ensino fundamental e médio, resume a matemática e professora Jane Vieira, da equipe da empresa de mesmo nome que está incubada há 3,5 anos no Cietec (Centro Incubador de Empresas Tecnológicas).
Jane explica que o software é não-linear, sem texto e sem voz, mas com música. E imagens em 3D, com as quais o professor pode interagir como quiser. O sistema tem cinco comandos básicos e suas imagens podem ser movimentadas e giradas em quaisquer direções.
“A escrita vem depois do entendimento do conceito, que é apresentado
visualmente”, reforça Mervyn Lowe (brasileiríssimo e descendente de
chineses, apesar do nome), principal executivo da P3D e encarregado de
sua comercialização. Mas o sistema, made in Brazil,
e consagrado no exterior, não tem conseguido abrir portas com
facilidade. “Levamos 1,5 ano para conseguir doá-lo. Doá-lo”, diz Lowe,
contando que, no ano passado, o P3D recebeu prêmio de Inovação
Tecnológica da Finep, e foi premiado em duas feiras especializadas, a
ExpoDidactica (na Espanha), e a WorldDidac (na Suíça).Apresentado pela primeira vez em 2004, na Educar (Feira Internacional de Educação), a primeira escola que adquiriu o sistema virtual foi a Jatobá, instituição privada da cidade de Santo André (SP). Hoje, 101 escolas particulares (40 no ABC paulista) usam o P3D, que, só agora, chega ao ensino público, seja pela via de convênios com prefeituras, casos de Rio das Flores (uma escola) e Piraí (quatro, uma delas do projeto UCA), no Rio de Janeiro; ou no bojo do Projeto Escola Modelo da Intel. Nessa ação da fabricante de chips, ela seleciona a instituição, monta o laboratório de informática, cuida de sua manutenção e dá treinamento de informática aos professores.
Na Na EE Armando Gabam (Osasco, SP), os 19 micros doados pela Intel têm Linux instalado, mas, como os professores não foram treinados no sistema, usam Microsoft XP, diz a professora Iovete Macena, que coordena a sala de informática. O P3D chegou na escola em 23 de março, com conteúdos de biologia e geografia. “A projeção é feita na parede, porque a lousa digital não veio, e a novidade empolgou as crianças. É diferente de usar o livro. É um data show que estimulou a participação dos alunos”, relata.

Pulmões (em azul) e coração
(em vermelho) Quando uma instituição compra ou licencia o software, a própria P3D treina os professores (quatro sessões de três horas cada). Segundo Lowe, o produto pode ser vendido de duas formas, e ambas independem do número de usuários. Escolas privadas pagam R$ 900,00 por mês por uma licença. As públicas podem licenciar pelo mesmo preço, ou comprar por R$ 30 mil. Lowe lembra, contudo, que, no atacado, a história é outra. Isto é, a escala tende a baratear o produto. Hoje, a maioria dos usuários do software 3D em tempo real projeta as imagens na parede, porque a lousa digital não sai por menos de R$ 5 mil — preço da que será montada no país, pela Positivo Informática (veja o quadro). Enquanto isso, o sistema é exportado para a Espanha, Estados Unidos, Finlândia, Portugal. Até agora, foram exportadas 300 cópias, uma por máquina.

Tudo isso se mexe.
De cima para baixo:
mitose, mitocôndria,
células, estrela do
mar, face iluminada
da lua. Até chegar em Emerson Gaudini, que virtualiza o sistema, o P3D tem três equipes de produção. O time pedagógico analisa o que e como vai ser apresentado; os modeladores são os artistas que constroem o conteúdo; os integradores dão vida aos modelos. E um músico cria as trilhas sonoras de acordo com as imagens. Além da ajuda de consultores educacionais e pedagógicos.
A ferramenta funciona onde a visualização agrega, ela é complementar, não dispensa o livro ou a leitura, reforça Lowe. Como ferramenta complementar, tira o professor do computador, trazendo-o de volta para a frente da classe. Mais do que isso, otimiza o seu tempo e aumenta a retenção do aluno. Assim, por exemplo, explicar todas as fases de desenvolvimento do feto leva duas aulas. Com o software virtual, basta uma. Para ensinar sobre a reprodução e o sistema reprodutivo são necessárias cinco aulas. Com o P3D, 2,5. Ou seja, mais tempo para o professor tirar dúvidas, aprofundar os temas. E para facilitar a vida dos alunos, as imagens dos conteúdos trabalhados na sala de aula podem ser enviados pela internet. “A referência da imagem tem a ver com a página do livro, fechando o elo”, observa Lowe.
Para rodar o sistema virtual só é preciso uma placa gráfica forte (offboard de 128 Mbps), 1 Giga de memória RAM, um processador com capacidade mínima de um Celeron/ou AMD equivalente.
Mervyn Lowe informa que, hoje, o P3D roda em Windows e, em dois meses, também vai trabalhar com o sistema operacional de código aberto da distribuição Ubuntu. “Vai para o Linux porque as verbas disponíveis para software se destinam a conteúdos, não ao licenciamento de sistemas operacionais”, acredita o CEO da P3D.
Em vez do giz, o dedo.
A lousa eletrônica, ou digital, não é uma invenção nova. Esse ferramental multissensorial existe há uma década, cerca de 400 mil dessas lousas estão instaladas no Reino Unido; 160 mil nos EUA; 140 mil no México. Essas lousas são telas sensíveis sobre as quais se projetam imagens, que podem ser manipuladas como se estivessem “fisicamente” no quadro, e sem perder definição — um requisito importante para os alunos acompanharem um raciocínio, por exemplo.
No mundo, dez empresas fabricam telas digitais, mas quatro delas têm 70% do mercado: a Smart Board, do Canadá; a britânica Promethean; a japonesa Hitachi e a eBeam em parceria com a mimio. Pelo que custam, tais equipamentos ainda são um luxo tecnológico para o país: o eBeam custa o equivalente a US$ 1 mil posto no Brasil, os demais, cinco vezes mais. Contudo, a lousa Prometheon que será montada pela Positivo Informática será comercializada por R$ 5 mil.
A lousa eletrônica, ou digital, não é uma invenção nova. Esse ferramental multissensorial existe há uma década, cerca de 400 mil dessas lousas estão instaladas no Reino Unido; 160 mil nos EUA; 140 mil no México. Essas lousas são telas sensíveis sobre as quais se projetam imagens, que podem ser manipuladas como se estivessem “fisicamente” no quadro, e sem perder definição — um requisito importante para os alunos acompanharem um raciocínio, por exemplo.
No mundo, dez empresas fabricam telas digitais, mas quatro delas têm 70% do mercado: a Smart Board, do Canadá; a britânica Promethean; a japonesa Hitachi e a eBeam em parceria com a mimio. Pelo que custam, tais equipamentos ainda são um luxo tecnológico para o país: o eBeam custa o equivalente a US$ 1 mil posto no Brasil, os demais, cinco vezes mais. Contudo, a lousa Prometheon que será montada pela Positivo Informática será comercializada por R$ 5 mil.








