Dia da Internet Segura - 2012
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Música livre é Jamendo


O site permite baixar músicas, escrever resenhas, recomendar obras, debater e, mais importante, fazer doações aos músicos. 
Sérgio Amadeu da Silveira



Willian Gibson lançou, em 1984, um livro de ficção chamado “Neuromancer”. Seu sucesso arrasador talvez tenha ocorrido devido à sua capacidade de captar as tendências do mundo virtual e da cibercultura, um movimento social em expansão. A palavra ciberespaço, termo hoje utilizado pelos cientistas e acadêmicos, foi inventada por Gibson nessa obra. A existência de um espaço formado no interior das redes informacionais, criado em “Neuromancer”, foi fundamental para liberar o pensamento criativo, na ficção e na pesquisa científica, seja para os irmãos Wachowski formarem o cenário em que Neo e Morpheus atuavam contra a Matrix, seja para o cientista social Manuel Castells entender o que estava ocorrendo na sociedade em rede.

Já faz algum tempo, em uma entrevista na prestigiada revista “Wired”, Willian Gibson soltou uma frase emblemática e brilhante: “o remix é a verdadeira natureza da cibercultura”. Como assim? Gibson defende que a cultura digital é a cultura da recombinação, da reconfiguração, da remixagem, do sample, do velho embutido no novo, que se torna ultranovo. As redes informacionais não só permitem o remix, como ele é a essência das redes. O hipertexto, o texto descontínuo, não-linear, repleto de pontes e ligações, pode ser continuamente vinculado a outros textos e a outros sites. Para onde o hipertexto nos leva? Para o espaço de uma grande remontagem e recombinação. A linguagem hipertextual e as redes são naturalmente recombinantes e permitem o crescimento contínuo.

A digitalização da música ocorreu quase em paralelo à digitalização do texto. A soma de sons, imagens e hipertextos assegurada pela web gerou um ambiente de hipermídia e de remixagem generalizado. Mas repare que, antes mesmo de ser digital, a música (o som em geral) sempre foi naturalmente recombinante. Enquanto os textos tinham que ser copiados e reescritos em outros suportes físicos, os sons eram muito mais livremente manipulados. Sem necessidade de nenhum outro suporte, qualquer garoto podia recombinar várias composições, letras e melodias diferentes em seu cérebro e cantá-las em seguida. Eu sempre fiz isto. Adorava juntar o samba de Cartola com Pink Floyd e com um conjunto de música sueco-indiana chamado Mynta.

Com a expansão das redes digitais, a música voltou a fluir como fluía em nossa imaginação. Na internet, a música está sendo constantemente recriada em uma grande sinapse coletiva, passando de computador em computador, pelos celulares e laptops, impulsionada pela velocidade do protocolo de troca de arquivos digitais BitTorrent. Usando o Audacity, um software de edição de áudio inteiramente livre, qualquer um pode remixar sons e, usando um simples microfone, criar seu próprio audiocast ou podcast (versão para i-pod). Impressionante! André Lemos, um dos principais e talvez o principal pesquisador da cibercultura no Brasil, escreveu, em agosto de 2005, um artigo intitulado Ciber-Cultura Remix. Nele, Lemos dizia ter feito uma busca no Google e encontrado mais de 4.940.000 referências para a palavra podcasting. No dia 2 de maio de 2007, fiz a mesma busca e encontrei 34.000.000 referências da mesma palavra. Em menos de dois anos, tivemos um crescimento de mais de 500%.

Mas e a Riaa, a poderosa associação das gravadoras norte-americanas? Como ela encara o fenômeno da música na rede, da produção coletiva de áudios, o compartilhamento de sons? Simplesmente, ela é contra. Essa associação considera qualquer compartilhamento de música um ato de pirataria. Na verdade, a Riaa quer manter os gigantescos lucros da velha indústria de fonogramas, mesmo que, para tal, tenha que tentar bloquear a essência e a natureza das redes informacionais. Segundo a Electronic Frontier Foundation, uma ONG que defende a liberdade de expressão na internet, a Riaa abriu mais de 18 mil processos criminais contra adolescentes, alguns de 12 anos. Qual o crime? Compartilhar músicas! Absurdo.

Como reação a esse movimento obscuro, contra os valores da solidariedade e da colaboração, contra essas iniciativas anticriativas, antimixagens e, portanto, avessas à cultura digital, é que surgiram iniciativas como a do movimento creative commons. Com ele, artistas liberam suas músicas na rede, permitindo que seus fãs conheçam, ouçam, recortem e até refaçam as suas obras. Neste cenário, surgiu um repositório de músicas livres que podem ser compartilhadas velozmente pelo BitTorrent. É o Jamendo. Música livre na rede.

No site do Jamendo, com versão em várias línguas, inclusive em português, as pessoas podem baixar músicas, escrever resenhas sobre os álbuns, artistas ou conjuntos que quiser, e pode participar de fóruns de discussão. O Jamendo também possui um sistema de recomendações que permite aos usuários encontrar mais facilmente novidades que sejam do seu gosto e estilo. E os fãs podem saber onde sua banda preferida está, e quando ela irá realizar um show. O mais genial do Jamendo, contudo, é o sistema que possibilita a qualquer pessoa fazer doações aos músicos. É muito importante reforçar soluções como o Jamendo (veja o link abaixo). Imperdível.


Por que aderir já

Jamendo é a única plataforma que combina:

• Uma plataforma legal que protege os direitos dos artistas (graças às licenças Creative Commons).

• Grátis, simples e acesso rápido à música, para todos.

• Uso das mais novas tecnologias peer-to-peer.

• A possibilidade de fazer doações diretas aos artistas.

• Um sistema de recomendações adaptativo, baseado no iRate, para ajudar os ouvintes a descobrir novos artistas, de acordo com suas preferências pessoais e outros critérios como localização.


www.jamendo.com — Jamendo
http://project.cyberpunk.ru/lib/neuromancer/ — Para ler  “Neuromancer”, mas em inglês.
www.eff.org — Electronic Frontier Foundation


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