A cultura que nasce da colaboração
Sites como Overmundo e Estúdio Livre experimentam novas formas de produção cultural, em ambientes abertos, colaborativos e que buscam, tanto quanto possível, a autonomia dos autores. A democratização das redes, contudo, depende do domínio das mídias digitais e da melhoria das interfaces para maior facilidade de uso. Verônica Couto

Documentário
“Hackers, pingüins
e balaclavas”, que
está sendo feito por
Pedro Bayeux,
documentarista
com vários trabalhos
sobre cultura livre.
Este também será
publicado no EL e
distribuído em DVD
para alguns Pontos
de Cultura. Usa
licença Creative
Commons. Munidos de acesso à internet e das novas tecnologias digitais, militantes e ativistas abrem espaços na rede para produção de informação — vídeo, música e notícias — em ambientes colaborativos. Pretendem dar voz a grupos, interesses e expressões culturais de forma independente da grande mídia e da indústria cultural. Estão lá para quem quiser publicar seus conteúdos. E podem ser recriados com softwares abertos, disponíveis online. No Brasil, experiências nessa direção estão sendo feitas na área de cultura, por exemplo, por sites como o Estúdio Livre e o Overmundo. Ou, de forma focada, por grupos de afinidades. Casos do Cidade em Cena, na área teatral, e do G2G, formado por mulheres para discutir questões de gênero.
O Estúdio Livre e o Overmundo dedicam-se à publicação de produtos culturais. E ambos pretendem construir uma nova dinâmica social e econômica, que gere valor a partir do compartilhamento de conhecimento, funcionando de forma horizontal e com o máximo de liberdade de expressão. Idealmente, visam o fim do intermediário, ou da figura do editor, que detém, na mídia tradicional, o poder de escolher o que merece ser veiculado e destacado. Nos dois sites, é freqüente a presença de obras criadas nos Pontos de Cultura, apoiados pelo programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, que se articula com as ambas as iniciativas. Mas, apesar das semelhanças, EL e Overmundo têm perfis, políticas e propósitos bem diferentes.
O Estúdio Livre é mantido por um grupo de cerca de 30 pessoas, entre voluntários e bolsistas pagos pelo MinC, por meio da organização não-governamental Instituto de Pesquisas da Tecnologia da Informação (IPTI). E tem apoio do Projeto Software Livre do Paraná, onde nasceu como um espaço de documentação técnica para a pesquisa coletiva de programas abertos para multimídia. Oferece, além do acervo cultural de acesso livre, tutorais sobre softwares para edição de vídeo, de áudio e produção gráfica, e listas para discussões técnicas entre artistas e programadores.
No final de 2006, o EL contava 3.223 usuários cadastrados no site, além de 201 assinantes de listas de discussão. Segundo o balanço anual das suas atividades, o site somava, em dezembro de 2006, 693 páginas wiki, e 67.960 de visitantes únicos (nov/06). Lançou o “Música de Ponto”, coletânea de músicas produzidas em oficinas do Cultural Digital, com os Pontos de Cultura. Todas as faixas foram construídas coletivamente em software livre e estão licenciadas em Creative Commons: pode baixar, copiar, remixar e redistribuir as músicas, que estão no site do EL. A coletânea foi organizada por Cristiano Scabello, Christian Osyo, Renato Cortez e Suriam, que integram a comunidade do site.
“Embora exista o YouTube, sentimos falta de um lugar para publicação de arquivos em formatos e com licenças livres, por isso, pensamos no Estúdio Livre com esse diferencial”, conta Fabianne Batista Balvedi, cineasta e ativista do Projeto Software Livre PR, que atuou no EL como pesquisadora-bolsista do IPTI, durante seis meses (até o final do ano passado), e agora é voluntária no site, do qual é a detentora formal do domínio.
O que é mídia livre
Em artigo que será publicado na revista “Aminima (aminima.net)”, de Barcelona, escrito em conjunto com Guilherme Soares, Adriana Veloso e Flávio Soares, Fabianne define o EL como um “ambiente de pesquisa, desenvolvimento, experimentação e produção de mídias livres”. E o que é mídia livre? O mesmo artigo explica: “Obras que podem ser distribuídas, remixadas e retransmitidas livremente de forma legal e sem qualquer tipo de restrição ao seu acesso. Tanto virtualmente quanto presencialmente”.
Entende-se, então, que, no Estúdio Livre, mídia livre é aquela divulgada em arquivos de formatos abertos — um requisito para publicar no site (veja o quadro) —, e sob modelos de licenciamento alternativos ao copyright ou ao direito autoral tradicional. As licenças das músicas, vídeos e textos permitem, de modo geral, uso gratuito para fins não-comerciais e exigem, nos produtos delas resultantes, a mesma política de licenciamento. As licenças com que o EL trabalha ainda são Creative Commons. Em breve, a intenção é tornar disponível no site outras opções de licenciamento para as obras: as usadas no Re:combo, um coletivo de músicos e artistas, e a GPL (General Public Licence, adotada em softwares livres).
A proposta de compartilhamento de obras culturais deriva do movimento do software livre, e das suas quatro liberdades (que têm como pré-prequisito o acesso ao código-fonte), idealizadas pela Free Software Foundation: liberdade para usar; para estudar; para copiar e redistribuir; e para aperfeiçoar o sistema e divulgar os aperfeiçoamentos. Estão na base da filosofia do Estúdio Livre, afirma Felipe Fonseca, outro pesquisador-bolsista do IPTI, que atua no Cultura Digital, no EL e foi um dos pioneiros no país em ambientes colaborativos (criou o LigaNóis, precursor do atual Conversê, onde se encontram integrantes dos Pontos de Cultura).

Lucas Santtana, que libera seu
CD no www.diginois.com.br e no
Overmixer, área do Overmundo
para remixes e sampler. Usa
licença Creative Commons. O Overmundo só aceita produções de brasileiros (no país ou no exterior) e também usa as licenças Creative Commons — como no EL, são obrigatórias para as obras publicadas no site. Mas não requer o uso de arquivos em formatos abertos. “Nosso público, em geral, não é familiarizado com informática. Não é um público de hackers, é o produtor cultural”, argumenta o antropólogo Hermano Vianna, um dos idealizadores do Overmundo, cuja plataforma, feita sob medida, também é escrita em código aberto.
Ele diz que estimula o uso do Open Office (para Linux), mas, quando começou a publicar arquivos nesse formato, constatou que uma grande quantidade de pessoas não conseguia abri-los. Por isso, passou a adotar formato PDF para os documentos, melhor aceito pelos leitores. “Com o passar do tempo, vão descobrir as vantagens dos formatos abertos, e o caminho natural é que prevaleçam. Mas, logo de início, ainda podem funcionar como uma barreira”.
De acordo com Hermano, o Overmundo tem dois objetivos. Um é informar as pessoas sobre a produção cultural brasileira, com notícias e agendas regionais. “O jornalismo tradicional é muito centralizado no Rio e em São Paulo. Queremos trazer informações sobre produções de outros lugares, sobretudo aquelas não divulgadas pela mídia”, justifica. A outra meta do site é ser um espaço para publicar a própria produção. As duas linhas editoriais estão distribuídas nas seções — os blogs e as notícias, para divulgação dos trabalhos; e o banco de cultura, que reúne o acervo de obras disponíveis.
“Especialmente no Brasil, que é grande, e onde é caro viajar, só há 1,8 mil livrarias, as lojas de disco estão fechando, atualmente, tornou-se mais fácil produzir, mas mais difícil atingir as pessoas com o que você produz”, afirma o antropólogo. O banco de cultura funciona, então, como um canal alternativo para essa distribuição. No início de março, somava 4.019 produtos, organizados por categorias: 768 músicas, 80 títulos para cinema e vídeo, 2.109 textos de literatura, 291 textos de não-ficção, 611 obras de artes visuais, 45 itens de arte eletrônica, e outras 115 produções não classificadas. No mesmo mês, eram 14 mil usuários cadastrados no Overmundo, de praticamente todos os estados do país.
Pé na realidade
Para ele, é evidente o impacto do fluxo de informações gerados pelo site — na formação de circuitos de distribuição que passam ao largo da indústria cultural. Por exemplo, as bandas que arregimentam fãs pela rede, sem lançarem um CD, como aconteceu com a Vanguart. A equipe do site também está conversando com pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em busca de uma tecnologia de micropagamento online, que permita fomentar os negócios com os produtos do seu banco de cultura.
O cartão de crédito não atende a essa demanda, porque exige um valor
mínimo de operação de R$ 10,00, e a proposta é trabalhar com preços bem
inferiores a esse. Hermano aponta um modelo de site internacional onde
é possível baixar as músicas de graça, mas, as mais populares, passam a
custar US$ 0,10, subindo de preço até o máximo de US$ 0,99. “Isso
envolve um sistema ágil e confiável de pagamento. Na Coréia, as pessoas
que gostarem de algum artigo do “OhMyNews” (jornal feito com a
colaboração dos leitores) podem doar centavos ao site pela conta
telefônica”, compara. “Estamos estudando como inventar um PayPal no
Brasil — em que você compra créditos e vai gastando, usando a moeda
local do Overmundo”. A empresa norte-americana PayPal, comprada pela
e-Bay, criou um sistema de transferência de dinheiro entre usuários de
e-mail, evitando métodos tradicionais como cheques e boleto bancário.
Por ter essa direção estratégica, o Overmundo é um site pontocom, ou
seja, comercial, esclarece Hermano. “Tem que funcionar como um ambiente
em que as pessoas possam ganhar dinheiro com as coisas que estão
produzindo. Muitas iniciativas vão surgir ainda, mas tudo isso já gerou
uma crise no antigo modelo de negócios da indústria cultural. Ninguém
sabe como fazer dinheiro, viver de produção colaborativa, ninguém
mesmo. Mas os modelos vão aparecer”.No Estúdio Livre, ainda não há consenso entre os seus integrantes sobre a possibilidade de o site ter desdobramentos comerciais (saiba mais). Os resultados esperados nesse caso envolvem, sobretudo, a maior articulação dos ativistas e a difusão das mídias livres. Felipe Fonseca, além de apoiar o Estúdio Livre, é da equipe de desenvolvimento do Conversê — site que serve à conversação e troca de idéias entre integrantes de Pontos de Cultura, com 4 mil cadastrados. “Esse movimento busca gerar autonomia. A própria rede dos Pontos (cerca de 500, no país) é a coisa mais forte do projeto. A tecnologia que se fornece para eles, esses ambientes — Conversê e Estúdio Livre — são ferramentas auxiliares no processo de formação de uma consciência solidária, que tem a ver com sustentabilidade local. São pedaços de um grande contexto de apoio à produção colaborativa e autônoma”, analisa.
Felipe, que também milita no MetaReciclagem (movimento pela apropriação tecnológica para fins de transformação social), lembra que, no começo de 2006, durante os preparativos para o Fórum Social Mundial, na Venezuela, um jovem de um Ponto de Cultura do Rio publicou no Conversê uma sugestão: pedir ao governo para mandá-lo (com outros ativistas) ao evento, em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). “A mensagem gerou uma conversa longa, chegou até o Secretário de Políticas e Programas do MinC, Célio Turino, que contactou outras pessoas e, finalmente, esse garoto e outras pessoas conseguiram ir à Venezuela no avião da FAB. Foi uma articulação que começou porque há um trabalho em rede, em que se usou o Conversê como ferramenta para dar vazão à mobilização”, descreve.
O Conversê trabalha com blogs dos participantes, e a publicação de comentários em ordem cronológica, na home. O ambiente, explica Felipe, pretende a formação de uma identidade coletiva e de grupos de interesses, além de orientar na rede as pessoas dos Pontos de Cultura. A equipe, neste momento, traça uma estratégia de desenvolvimento para 2007. “É bastante possível que o foco central do ambiente saia dos blogs, e vá mais para chats, bate-papos instantâneos. É a evolução do sistema, e tem bastante a ver com essa forma tipicamente brasileira de apropriação da tecnologia, de buscar a comunicação entre as pessoas, os relacionamentos”.
Para publicar no Estúdio Livre
• Formatos bem-vindos
No Estúdio Livre, são aceitos para publicação, estimulados e utilizados nas produções (áudio, vídeo e texto) os seguintes formatos de arquivo:
www.vorbis.com (áudio)
www.theora.org (vídeo)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Open_Document (texto)
• Formatos tolerados
São arquivos fechados, de programas proprietários, mas ainda admitidos no Estúdio Livre.
Mp3, Avi, Mp4 e Mpeg
• Formatos vetados
Produções digitais nesses formatos não são aceitas no Estúdio livre.
Wmv e Wma
Mov (até sobem, mas quem publicou é “estimulado” a mudar o codec)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Codec – Para saber mais sobre codecs livre e não livres. Codecs são ferramentas para codificação e edição de áudio e vídeo.
• Formatos bem-vindos
No Estúdio Livre, são aceitos para publicação, estimulados e utilizados nas produções (áudio, vídeo e texto) os seguintes formatos de arquivo:
www.vorbis.com (áudio)
www.theora.org (vídeo)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Open_Document (texto)
• Formatos tolerados
São arquivos fechados, de programas proprietários, mas ainda admitidos no Estúdio Livre.
Mp3, Avi, Mp4 e Mpeg
• Formatos vetados
Produções digitais nesses formatos não são aceitas no Estúdio livre.
Wmv e Wma
Mov (até sobem, mas quem publicou é “estimulado” a mudar o codec)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Codec – Para saber mais sobre codecs livre e não livres. Codecs são ferramentas para codificação e edição de áudio e vídeo.
Fonte: Fabianne Baveldi
Teatro e meninas em rede

Júlio, da Cia. Teatral Traquinagem Grupos de afinidades, não necessariamente da área tecnológica, estão construindo ambientes temáticos para produção e comunicação em rede. Casos do Cidade em Cena, na área teatral, e do G2G, tocado por mulheres para discutir questões de gênero. Para alguns especialistas, como Hernani Dimantas, coordenador do Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária (Lidec) da USP, essas experiências focadas podem ter uma capacidade de inclusão social maior do que ambientes mais genéricos.
Drica Veloso é formada em Comunicação e trabalha com informática. Integra o Estúdio Livre e também o G2G, um espaço colaborativo, formado por cerca de 20 mulheres, de vários estados. Só trabalham via internet. “Conseguimos nos encontrar uma única vez, no final de 2006, quando o coletivo já tinha quase um ano de existência”, conta. O site usa o software Drupal para a publicação dos conteúdos, como o Conversê, e está dividido em uma parte pública — com os blogs das integrantes e a lista de discussão —, e outra privada — a área de trabalho do ambiente, para as dez usuárias com permissão de administração e poder de editar.
Há notícias, estudos, links, conteúdos de campanhas de mobilização, alguns áudios e vídeos. Sempre com a questão de gênero como tema. Segundo Drica, por ser muito focado, as administradoras não enfrentam a situação de ter de censurar. O conteúdo do G2G está publicado em copyleft. Usam uma licença própria, criada pelo grupo. Estabelece, em síntese, que a obra pode ser reutilizada para fins não-comerciais, e as derivadas têm que continuar sob a mesma licença. Formato aberto de arquivo não é obrigatório, mas preferencial. E todo o trabalho é voluntário.
Este ano, as meninas — psicólogas, historiadoras, jornalistas, etc. — vão tentar se encontrar outra vez. A primeira reunião foi, exatamente, para uma oficina com o Drupal. Para que aquelas não envolvidas com tecnologia pudessem usar o sistema, “sem depender da boa de vontade de outras mulheres ou de homens”, completa a miltante. Ela ressalta, ainda, que é preciso ter acesso regular ao computador e à web para conseguir participar. “São 130, 200 e-mails por dia”, calcula. Quem poderá acompanhar isso, com meia hora de acesso em telecentros?
Os integrantes do Cidade em Cena recorreram aos infocentros mantidos pelo governo de São Paulo, o programa Acessa SP (saiba mais). É um projeto que articula grupos de teatro amador de várias periferias da Grande São Paulo, com trabalhos que têm a cidade como tema. Começou a ser desenvolvido por Piatã Stoklos, em 2003, com apoio da Apa -Associação Paulista de Amigos da Arte, e acontece em três fases: uma oficina teatral com os jovens; um festival, com apresentações; e reapresentações nas comunidades de origem dos grupos. Na sua segunda edição, em 2006, contou com o suporte do Instituto Ninhos (onde está hospedado o site), e a participação do presidente da entidade, Bruno Padilha, como co-organizador.
Na oficina, metade dos temas é relacionada ao teatro — voz, corpo, improvisação, e também para criar uma interação entre os diferentes grupos. A outra metade discute os temas em foco, os problemas comuns, e também a formação de redes, presenciais e virtuais. Na edição do ano passado, na parceria com o Acessa São Paulo, os integrantes tiveram oficina sobre redes colaborativas, Orkut, wikipedia, etc.

Felipe Jóia e Maria Gabriela
do Grupo Anônimus Piatã, que é gestor de projetos culturais, sabe que a participação ampla depende de inclusão digital. Por isso, buscou a parceria com o Acessa SP em 2003, no início do Cidade em Cena. “Realizamos um encontro com todos os monitores dos infocentros, para apresentar o site do projeto e mostrar como os grupos podiam se inscrever — o que, no primeiro ano, só era possível pela web. Quem não tivesse conexão, devia procurar o infocentro mais perto e o monitor, que ele saberia como fazer”.
Em 2003, o projeto reuniu oito grupos; e, em 2006, cinco. O festival traz peças curtas, de dez a 30 minutos (duas ou três peças por noite), e debates. As oficinas são gravadas e editadas. Segundo Piatã, o site, em início de construção, “deverá ser bastante participativo e de fácil acesso para as pessoas interessadas no tema”. No ambiente, já é possível consultar informações sobre os professores (foto, currículo, textos recomendados, links, contatos); mural de recados; blogs; fotos das apresentações e colaborar numa área para sugestões dos grupos. A publicação de conteúdo, diz Piatã, será “totalmente livre”. Atualmente, reúne cerca de 40 pessoas.
Este ano, um dos grupos do Cidade em Cena, “Nascido do Buraco” (formado por artistas do “Buraco do Oráculo”), começou a desenvolver o projeto “Redes em Ação”. “No CEU-Centro Educacional Unificado Parque São Carlos, vão chamar entidades para se responsabilizarem pela cultura local. E vão convidar os grupos do Cidade em Cena para se apresentarem. É uma rede de fato”, comemora Piatã. A idéia é montar um circuito cultural, com outros grupos se articulando com outros CEUs, e promovendo rodízios. “E vão usar o site para trocar informações”
Para Dimantas, as comunidades colaborativas de ativistas devem ficar atentas para “não ficarem falando para si mesmas, sem fazer nenhum agenciamento”. O conceito de agenciamento, utilizado pelo filósofo Gilles Deleuze, significa, de acordo com o coordenador do Lidec, “fazer a informação circular no local e dar condição de criar conhecimento e transformação”. Ou seja, levar a informação, dar o acesso ao computador nas comunidades, permitir que elas produzam cultura e façam algo diferente naquele lugar. “A periferia não consegue acompanhar a atuação intensiva das redes. São pessoas que ficam 12 horas no computador”, adverte.
Para contrabalancear esse desequilíbrio de oportunidades, o pesquisador defende mais ações de “agenciamento”. “Não adianta só explicar como funciona, é preciso fazer a pessoa se engajar no conhecimento. Para isso, a ação deve ser receptiva, acolhedora. Mas esse pessoal (das redes) nem sempre é acolhedor. Há muitos adolescentes, jovens, a fim de fazer as próprias pirações. O objetivo não é inclusivo, mas estar na onda do reconhecimento de se compreender como um hacker, um geek (aficcionado em tecnologia)”. Assim, na avaliação de Dimantas, processos como o do Cidade em Cena seriam mais inclusivos. “Vai ter 40 caras, vai rolar menos informação, a informação será mais precária, mas o link da comunidade é mais forte”, diz.
http://g2g.sarava.org
www.cidadeemcena.org
www.ninhos.org
www.lidec.usp.br

Júlio, da Cia. Teatral Traquinagem Grupos de afinidades, não necessariamente da área tecnológica, estão construindo ambientes temáticos para produção e comunicação em rede. Casos do Cidade em Cena, na área teatral, e do G2G, tocado por mulheres para discutir questões de gênero. Para alguns especialistas, como Hernani Dimantas, coordenador do Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária (Lidec) da USP, essas experiências focadas podem ter uma capacidade de inclusão social maior do que ambientes mais genéricos.
Drica Veloso é formada em Comunicação e trabalha com informática. Integra o Estúdio Livre e também o G2G, um espaço colaborativo, formado por cerca de 20 mulheres, de vários estados. Só trabalham via internet. “Conseguimos nos encontrar uma única vez, no final de 2006, quando o coletivo já tinha quase um ano de existência”, conta. O site usa o software Drupal para a publicação dos conteúdos, como o Conversê, e está dividido em uma parte pública — com os blogs das integrantes e a lista de discussão —, e outra privada — a área de trabalho do ambiente, para as dez usuárias com permissão de administração e poder de editar.
Há notícias, estudos, links, conteúdos de campanhas de mobilização, alguns áudios e vídeos. Sempre com a questão de gênero como tema. Segundo Drica, por ser muito focado, as administradoras não enfrentam a situação de ter de censurar. O conteúdo do G2G está publicado em copyleft. Usam uma licença própria, criada pelo grupo. Estabelece, em síntese, que a obra pode ser reutilizada para fins não-comerciais, e as derivadas têm que continuar sob a mesma licença. Formato aberto de arquivo não é obrigatório, mas preferencial. E todo o trabalho é voluntário.
Este ano, as meninas — psicólogas, historiadoras, jornalistas, etc. — vão tentar se encontrar outra vez. A primeira reunião foi, exatamente, para uma oficina com o Drupal. Para que aquelas não envolvidas com tecnologia pudessem usar o sistema, “sem depender da boa de vontade de outras mulheres ou de homens”, completa a miltante. Ela ressalta, ainda, que é preciso ter acesso regular ao computador e à web para conseguir participar. “São 130, 200 e-mails por dia”, calcula. Quem poderá acompanhar isso, com meia hora de acesso em telecentros?
Os integrantes do Cidade em Cena recorreram aos infocentros mantidos pelo governo de São Paulo, o programa Acessa SP (saiba mais). É um projeto que articula grupos de teatro amador de várias periferias da Grande São Paulo, com trabalhos que têm a cidade como tema. Começou a ser desenvolvido por Piatã Stoklos, em 2003, com apoio da Apa -Associação Paulista de Amigos da Arte, e acontece em três fases: uma oficina teatral com os jovens; um festival, com apresentações; e reapresentações nas comunidades de origem dos grupos. Na sua segunda edição, em 2006, contou com o suporte do Instituto Ninhos (onde está hospedado o site), e a participação do presidente da entidade, Bruno Padilha, como co-organizador.
Na oficina, metade dos temas é relacionada ao teatro — voz, corpo, improvisação, e também para criar uma interação entre os diferentes grupos. A outra metade discute os temas em foco, os problemas comuns, e também a formação de redes, presenciais e virtuais. Na edição do ano passado, na parceria com o Acessa São Paulo, os integrantes tiveram oficina sobre redes colaborativas, Orkut, wikipedia, etc.

Felipe Jóia e Maria Gabriela
do Grupo Anônimus Piatã, que é gestor de projetos culturais, sabe que a participação ampla depende de inclusão digital. Por isso, buscou a parceria com o Acessa SP em 2003, no início do Cidade em Cena. “Realizamos um encontro com todos os monitores dos infocentros, para apresentar o site do projeto e mostrar como os grupos podiam se inscrever — o que, no primeiro ano, só era possível pela web. Quem não tivesse conexão, devia procurar o infocentro mais perto e o monitor, que ele saberia como fazer”.
Em 2003, o projeto reuniu oito grupos; e, em 2006, cinco. O festival traz peças curtas, de dez a 30 minutos (duas ou três peças por noite), e debates. As oficinas são gravadas e editadas. Segundo Piatã, o site, em início de construção, “deverá ser bastante participativo e de fácil acesso para as pessoas interessadas no tema”. No ambiente, já é possível consultar informações sobre os professores (foto, currículo, textos recomendados, links, contatos); mural de recados; blogs; fotos das apresentações e colaborar numa área para sugestões dos grupos. A publicação de conteúdo, diz Piatã, será “totalmente livre”. Atualmente, reúne cerca de 40 pessoas.
Este ano, um dos grupos do Cidade em Cena, “Nascido do Buraco” (formado por artistas do “Buraco do Oráculo”), começou a desenvolver o projeto “Redes em Ação”. “No CEU-Centro Educacional Unificado Parque São Carlos, vão chamar entidades para se responsabilizarem pela cultura local. E vão convidar os grupos do Cidade em Cena para se apresentarem. É uma rede de fato”, comemora Piatã. A idéia é montar um circuito cultural, com outros grupos se articulando com outros CEUs, e promovendo rodízios. “E vão usar o site para trocar informações”
Para Dimantas, as comunidades colaborativas de ativistas devem ficar atentas para “não ficarem falando para si mesmas, sem fazer nenhum agenciamento”. O conceito de agenciamento, utilizado pelo filósofo Gilles Deleuze, significa, de acordo com o coordenador do Lidec, “fazer a informação circular no local e dar condição de criar conhecimento e transformação”. Ou seja, levar a informação, dar o acesso ao computador nas comunidades, permitir que elas produzam cultura e façam algo diferente naquele lugar. “A periferia não consegue acompanhar a atuação intensiva das redes. São pessoas que ficam 12 horas no computador”, adverte.
Para contrabalancear esse desequilíbrio de oportunidades, o pesquisador defende mais ações de “agenciamento”. “Não adianta só explicar como funciona, é preciso fazer a pessoa se engajar no conhecimento. Para isso, a ação deve ser receptiva, acolhedora. Mas esse pessoal (das redes) nem sempre é acolhedor. Há muitos adolescentes, jovens, a fim de fazer as próprias pirações. O objetivo não é inclusivo, mas estar na onda do reconhecimento de se compreender como um hacker, um geek (aficcionado em tecnologia)”. Assim, na avaliação de Dimantas, processos como o do Cidade em Cena seriam mais inclusivos. “Vai ter 40 caras, vai rolar menos informação, a informação será mais precária, mas o link da comunidade é mais forte”, diz.
http://g2g.sarava.org
www.cidadeemcena.org
www.ninhos.org
www.lidec.usp.br
Links
www.estudiolivre.org — Estúdio Livre. Além de músicas e vídeos produzidos nos Pontos e Cultura ou por produtores independentes, pode-se baixar do site ferramentas colaborativas, para edição de áudio e vídeo (com tutorais), e participar de lista de discussão.
http://stats.estudiolivre.org — Estatísticas do Estúdio Livre.
http://converse.org.br/ — Para participar das conversas entre os integrantes dos Pontos de Cultura. Basta se cadastrar.
www.overmundo.com.br — Overmundo
www.aec.at/en/prix/about.asp — Sobre o prêmio Prixars, que o Estúdio Livre quer disputar neste ano.
www.aec.at/en/prix/cat_digital_communities.asp — Idem.
www.vivaolinux.com.br/dicas/verDica.php?codigo=2000 — Sobre apt-get
www.metareciclagem.org
http://slashdot.org — Um dos primeiros ambientes colaborativos da rede, criado por ativistas do movimento do software livre. Em inglês.
http://english.ohmynews.com/ — Ohmynews, jornal coreano feito com a participação de leitores. Em inglês.
www.recombo.art.br — Re:combo. Coletivo de artistas e engenheiros de software que trabalha com arte digital e música de forma colaborativa. Também defende distribuição livre ou copyleft das obras.
www.creativecommons.org.br
Sobre o trabalho de Pedro Bayeux
http://estudiolivre.org/tiki-index.php?page=entrevistas
www.pirex.com.br/2007/03/02/manaus-ultima-parte-minidocumentario/
• Documentários sobre cultura livre:
www.pirex.com.br/compre-me-eu-vontade-de-morrer/
www.pirex.com.br/gamer-br
www.pirex.com.br/recbeat-e-o-hipertexto
http://estudiolivre.org/tiki-index.php?page= hackerspinguinsebalaclavas
www.pirex.com.br/2007/03/07/blogbeat-2x/
www.pirex.com.br/2007/02/28/blogbeat/
Sobre o trabalho Lucas Santtana
http://lucasanttana.eletrocooperativa.art.br
www.estudiolivre.org — Estúdio Livre. Além de músicas e vídeos produzidos nos Pontos e Cultura ou por produtores independentes, pode-se baixar do site ferramentas colaborativas, para edição de áudio e vídeo (com tutorais), e participar de lista de discussão.
http://stats.estudiolivre.org — Estatísticas do Estúdio Livre.
http://converse.org.br/ — Para participar das conversas entre os integrantes dos Pontos de Cultura. Basta se cadastrar.
www.overmundo.com.br — Overmundo
www.aec.at/en/prix/about.asp — Sobre o prêmio Prixars, que o Estúdio Livre quer disputar neste ano.
www.aec.at/en/prix/cat_digital_communities.asp — Idem.
www.vivaolinux.com.br/dicas/verDica.php?codigo=2000 — Sobre apt-get
www.metareciclagem.org
http://slashdot.org — Um dos primeiros ambientes colaborativos da rede, criado por ativistas do movimento do software livre. Em inglês.
http://english.ohmynews.com/ — Ohmynews, jornal coreano feito com a participação de leitores. Em inglês.
www.recombo.art.br — Re:combo. Coletivo de artistas e engenheiros de software que trabalha com arte digital e música de forma colaborativa. Também defende distribuição livre ou copyleft das obras.
www.creativecommons.org.br
Sobre o trabalho de Pedro Bayeux
http://estudiolivre.org/tiki-index.php?page=entrevistas
www.pirex.com.br/2007/03/02/manaus-ultima-parte-minidocumentario/
• Documentários sobre cultura livre:
www.pirex.com.br/compre-me-eu-vontade-de-morrer/
www.pirex.com.br/gamer-br
www.pirex.com.br/recbeat-e-o-hipertexto
http://estudiolivre.org/tiki-index.php?page= hackerspinguinsebalaclavas
www.pirex.com.br/2007/03/07/blogbeat-2x/
www.pirex.com.br/2007/02/28/blogbeat/
Sobre o trabalho Lucas Santtana
http://lucasanttana.eletrocooperativa.art.br








