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Telecentros - Inclusão digital e rock’n roll


A Associação Cultural Cearense do Rock mostra que nem todo “roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido”, como dizia a música “Ôrra meu!”, dos Mutantes.
  
Heitor Augusto

A imagem do rock, desde os anos 60, esteve ligada ao hedonismo, ou seja, viver intensamente, sem se importar com o dia seguinte e aproveitar todos os prazeres possíveis. Bandas internacionais, como Rolling Stones, Kiss e Guns and Roses – além das nacionais Barão Vermelho, Mutantes e Raimundos, por exemplo – cultuaram, em maior ou menor intensidade, o lema “sexo, drogas e rock’n roll”.


O ABC Digital tem seis máquinas,
todas rodando software livre, além
de biblioteca com 700 títulos.
Quem pensa que rock se resume a isso está enganado. É o que mostram os roqueiros da Associação Cultural Cearense de Rock (ACR), criada em 1998, e que, hoje, agrega 35 bandas. E mais: aproveitando a experiência de outras entidades, que seguiram a trilha da inclusão digital, a ACR montou, em 2004, um telecentro na periferia de Fortaleza, o ABC Digital. O espaço, hoje, conta com seis máquinas rodando software livre, além de uma biblioteca com cerca de 700 títulos, todos doados. São realizadas oficinas, uma vez por semana, para um primeiro contato com o computador e, nos outros quatro dias, os usuários podem acessar a internet.

O pontapé inicial para tirar o ABC Digital do papel foi a vitória no I Concurso Nacional de Inclusão Digital para Jovens, promovido pela OnG Comunitas, em 2002. Como prêmio, a ACR recebeu sete computadores e duas bolsas para monitores, no valor de R$ 300,00, pelo período de seis meses. Mas, havia a exigência de que o espaço estivesse localizado em uma comunidade, o que não era o caso da associação, situada em uma via com tráfego intenso de transportes coletivos.

Enquanto a nova sede não era construída – por falta de recursos –, os encontros ocorriam ao ar livre. “Passamos seis meses nos reunindo no bosque da Universidade Federal do Ceará, até sermos expulsos pela vigilância”, lembra Amaudson Ximenes, presidente da ACR. Passaram a se encontrar na praça da Gentilândia, mas não por muito tempo. O local é próximo do Estádio Presidente Vargas, do Treze F.C., e o perigo de confronto entre torcidas era constante. A associação se mudou para a nova sede, ainda em construção, à época, na Rua do Fogo.

Hoje, o ABC Digital está no bairro de Jacarecanga e já alfatetizou digitalmente cerca de mil pessoas. “A Rua do Fogo tem cerca de 1.500 habitantes. A comunidade é grande, tem a favela do Pirambú, com 300 mil, e o Morro do Ouro, com cerca de 100 mil”, diz Ximenes sobre os entornos da ACR. Segundo pesquisas do presidente da Associação Cultural Cearense do Rock, a renda mensal da comunidade gira em torno de 2,5 salários mínimos – muitos trabalham informalmente.


A única frustração com o ForCaos
deste ano foi o público pequeno
nos debates
Em outubro de 2005, o projeto recebeu máquinas doadas pelo Banco do Brasil e as antigas, que haviam sido ganhas no concurso da Comunitas, transformaram-se no servidor. A distribuição que roda nos computadores é Debian-CE. “A gente tinha um amigo que trabalhava numa firma de telefonia. Ele conversou com o pessoal do Debian e eles fizeram a instalação para nós”, explica Ximenes. O suporte fica por conta da casa: o diretor financeiro da ACR e vocalista da banda Obskure, Luís Alberto, conhecido como Zool, faz a manutenção das estações. Mas, por conta dos poucos recursos financeiros, o espaço do ABC Digital só fica aberto na parte da tarde, das 14 às 18 horas. Os monitores são todos voluntários.

E por que usar software livre? “Ele é a maior expressão da imaginação dissidente de uma sociedade que busca mais do que a sua mercantilização. Além disso, é um movimento baseado no princípio do compartilhamento do conhecimento e na solidariedade praticados pela inteligência coletiva”, analisa o presidente da ACR.

O grupo ampliou os horizontes e tem procurado trocar experiências com outros movimentos de inclusão digital. Prova disso foi a participação da ACR na V Oficina de Inclusão Digital (saiba mais), ocorrida entre 5 e 9 de junho, em Porto Alegre. A viagem de Fortaleza ao sul do país foi financiada pelo Banco do Brasil e o material de divulgação do projeto cearense teve apoio do Banco do Nordeste.


“Roqueiro não gosta de discutir”

No calendário da associação, há sempre uma data do ano em que os integrantes de movimentos comunitários e as bandas de rock ocupam o mesmo espaço: é o ForCaos, realizado desde 1999, como alternativa ao Fortal, o carnaval fora de época.

Assim como em 2005, o festival deste ano dividiu-se em dois eixos: discussão e música. O pontapé inicial foi dado nos quatro debates, divididos entre os dias 14 e 15 de julho. Um dos temas foi economia solidária e a experiência de selos musiciais que trabalham com o sistema de cooperativa para produzir os discos. A ACR, por exemplo, lançou, em dezembro do ano passado, uma coletânea com músicas de 16 bandas. Cada grupo contribuiu com uma quantia para financiar a produção e os lucros são divididos entre todos. A Associação Cultural Brasiliense, entidade que inspirou a criação da ACR, também participou da discussão, contando sua experiência nesse tipo de produção independente.


Durante os três dias de festival,
cerca de 9 mil pessoas assistiram
as 30 bandas que se apresentaram.
A única frustração de Ximenes foi em relação ao público presente nos debates, que não passou de 30 pessoas por mesa. Ele conta que a edição deste ano foi a que mais teve divulgação, ganhando as páginas dos jornais, revistas e textos na internet. O retorno, todavia, não veio da forma esperada. “Acho que roqueiro não gosta muito de discutir”, brinca.

Depois de tanto papo, foi a hora do rock na veia. Entre os dias 21 a 23, 30 bandas dividiram o palco e empolgaram o público da Rua José Avelino, tradicionalmente conhecida como Hey Ho, por conta dos agitos culturais. Tudo ao ar livre – e de graça. Pela primeira vez, desde a primeira edição do ForCaos, a prefeitura entrou como parceira, reservando, para o festival musical, um contingente de guardas civis metropolitanos e montando um esquema de trânsito diferenciado, além de enviar, para as discussões, alguns de seus representantes, entre os quais Afonso Sousa, assessor do gabinete da prefeita Luzziane Lins.

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