Dia da Internet Segura - 2012
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Telecentros - As aldeias, dentro da rede.


Pipocam pelas aldeias do país os primeiros telecentros indígenas, sempre à base de antena via satélite e energia solar. E as aldeias não se acanham, pegam no mouse com fé e entram com tudo no mundo virtual.
Lino Bocchini


Todas as aldeias usam conexão
via satélite.
Um desjejum com suculentos nacos de carne de paca deu as boas-vindas aos técnicos na chegada à pequena aldeia Ashaninka, no Acre, perto da fronteira peruana. Povo guerreiro e de descendência inca, os Ashaninka vivem no Brasil e no Peru. E estão conectados à internet desde 2003. Foi o segundo  ponto da Rede Povos da Floresta. Hoje uma ONG, a rede nasceu de uma parceria do CDI (Comitê para Democratização da Informática) com a Star One, empresa de satélite da Embratel, e é apoiada pela Comissão Satélite do Acre. Antes dos Ashaninka, os técnicos já haviam enfrentado dias de canoa até a aldeia dos Yawanawa, também em território acreano, onde está o primeiro ponto do projeto.

Instalar um telecentro em uma aldeia completamente isolada não é tarefa simples. Além das dificuldades para levar o equipamento, a energia tem que ser solar e a conexão só é possível via satélite. Aliás, nesse aspecto, foi decisiva a proliferação de antenas do Gesac (Governo Eletrônico - Serviço de Atendimento ao Cidadão), iniciativa do Ministério das Comunicações presente em quase todas as tribos plugadas. Depois, vem a capacitação dos índios que vão gerir o telecentro, ensinamentos para toda  aldeia e, ainda, a manutenção dos micros em local de umidade e calor extremo. Mas esses obstáculos não impedem os projetos de prosperar. A Rede Povos da Floresta, por exemplo, já tem cinco pontos funcionando, e novos pontos devem ser instalados em 2006.

Maracá do branco

Outro projeto, coincidentemente de nome semelhante, é a Rede Floresta Topawa Ka’á (rede floresta no dialeto parakanã). Patrocinado pela Eletronorte, já tem quatro pontos em operação, todos geridos pelos próprios índios. A gestão na mão das tribos, aliás, é uma constante em projetos de inclusão social em áreas indígenas. É o caso também, por exemplo, do telecentro mantido pelo ISA (Instituto Sócio-Ambiental) junto aos Baniwa, tribo da Terra Indígena do Alto Rio Negro.

Para chegar até os Baniwa, só de barco, em uma viagem de 700 quilômetros que dura três dias a partir do município mais próximo, São Gabriel da Cachoeira. E São Gabriel, por sua vez, está a cerca de 800 km de Manaus, isso subindo contra a correnteza do Rio Negro. Ou seja, isolado é pouco. E mesmo assim os Baniwa estão conectados à rede mundial. “São quase cem alunos na escola indígena que tem computador e internet. Aproveitamos o que a rede nos traz de bom, informações de plantas, pesca, ecologia, tudo que for útil para a comunidade”, conta André Fernando Baniwa, escolhido pelo seu povo como emissário junto ao homem branco. André Fernando mora em São Gabriel, e é vice-presidente do Foirn, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.

Ali, no noroeste amazônico brasileiro, existem cerca de 750 aldeias ocupando uma área de 108.000 km², vastidão onde habitam mais de 30 mil índios pertencentes a 22 grupos étnicos. “Hoje só temos dois computadores, mas todo mundo usa. A partir de 13, 14 anos já está usando”, conta o Baniwa. “Na tribo, chamamos a internet de Maracá de branco. Maracá é o instrumento que o pajé usa em rituais para enxergar e analisar o mundo inteiro. Então, a internet é o maracá do branco”.

Iniciativas como essa não estão presentes apenas na região amazônica. Em Aracruz, no Espírito Santo, duas aldeias já têm laboratórios de informática cedidos pelo Banco do Brasil e gerenciados pelo Cepec (Centro de Práticas Sociais, Educacionais e de Cidadania). Os índios das tribos Caieiras Velha e Pau-Brasil agora aguardam internet, que chegará em março, fornecida pela prefeitura local. “Há muitos anos eles tinham vontade de ter acesso, e agora vão ter”, fala Jucelino José dos Santos, do Cepec. Os 2 mil índios da região usam Windows. “Tentamos o Linux, mas não deu certo, o banco só nos forneceu uma versão em espanhol”, diz José dos Santos.

Nesse aspecto, Aracruz é uma exceção. Nos demais projetos, o software livre é dominante. No caso da Eletronorte, a escolha buscou alinhamento à opção do governo federal para todo o setor de informática pública, e também pesou a redução de gastos. Já a rede Povos da Floresta, do CDI, opera com os dois sistemas. “Não determinamos qual é o melhor, ensinamos a usar Linux e Windows, o uso de um ou de outro não é obrigatório”, explica a antropóloga Virgínia Gandres, uma das coordenadoras do projeto.

Mas como é, na prática, essa história de aparecer um computador com internet lá no meio do nada, em uma tribo a centenas de quilômetros de qualquer povoado? “É preciso muita paciência para ensinar; nas aldeias, as crianças tinham medo até de encostar no mouse”, conta Virgínia. Em todas as tribos, há restrições comuns a outros telecentros, como o acesso vetado a sites de pornografia e chats, mas não passa disso. Em geral, como muitas vezes os índios não falam nem português, o acesso é coletivo, o que inibe o mau uso. E o aprendizado é complicado. No caso dos Baniwas, foi até elaborado um glossário e um pequeno manual, todo na língua deles.

E com os horários de uso limitados pela luz solar que alimenta as placas de captação de energia, não sobra muito tempo para grandes navegadas individuais. Na época de chuvas, o horário de funcionamento dos telecentros pode cair para duas ou três horas diárias, três vezes por semana. Mas, no alto verão amazônico, o funcionamento pode ir de manhã cedo até o começo da noite, todos os dias.

Nessa discussão de uso dos computadores, vale novamente ouvir a opinião da antropóloga Virgína. “Falam que a internet pode prejudicar os índios, mas isso é besteira. Ela acaba sendo, isso sim, um fator de fortalecimento da cultura deles, uma vez que eles podem registrá-la no computador”. As tribos plugadas assinam embaixo.

www.redepovosdafloresta.com.br • Rede Povos da Floresta
www.link-all.org • Link-All (projeto da UE)
www.socioambiental.org • ISA
www.eln.gov.br • Eletronorte

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