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N@escola - Um computador por aluno. Definição só em dezembro.


Governo amplia o foco para discutir o uso de tecnologia na educação e proposta do MIT passa a ser uma das alternativas.


O MIT promete um prótotipo
para este mês. Grupo do Brasil
já desenvolveu design.
Não se pode dizer que o governo colocou o pé no freio no projeto Um Computador por Aluno, genericamente conhecido como laptop de US$ 100, uma iniciativa do MediaLab, do MIT (Massashuts Institute of Technology), capitaneada por Nicholas Negroponte. Mas houve uma mudança de direção no processo de discussão do grupo de trabalho – governo e universidades – encarregado de avaliar a viabilidade da proposta de Negroponte. “Ampliamos o escopo da discussão para a aceleração da aplicação das tecnologias de informação e comunicação na educação básica, onde o projeto do MIT é uma das alternativas”, resume Cézar Alvarez, coordenador do grupo e assessor especial da Presidência da República.

Segundo Alvarez, a equipe foi dividida em seis subgrupos encarregados de estudar os diferentes aspectos envolvidos no projeto, onde os mais relevantes são os relativos ao desenvolvimento de conteúdo e dos aplicativos para uso dos alunos. Mas a equipe também está olhando a questão da estrutura produtiva brasileira – para dar escala e conseguir baixar os custos, a proposta de Negroponte é que o primeiro milhão de unidades fosse produzido centralizadamente por China, Coréia do Sul ou Taiwan. Como houve reação forte por parte de alguns fabricantes nacionais, como Positivo e Samurai, que se sentem em condições de desenvolver soluções semelhantes por custo equivalente - desde que equacionada a questão do financiamento -, a comissão técnica decidiu promover uma oficina, em novembro, com a participação da indústria e de um conjunto de entidades, especialmente ligadas à área pedagógica, para fazer uma grande exposição dos trabalhos já desenvolvidos pelo grupo e pelas entidades acadêmicas desenvolvidas.

Design tupiniquim

Embora seja um admirador do projeto de Negroponte, que no final de outubro esteve mais uma vez no Brasil apresentando os avanços do trabalho do laptop de US$ 100, cujo nome oficial é One Lap Top Per Child (OLPC), Alvarez lembra que há uma série de questões ainda a serem resolvidas pelo MediaLab, envolvendo o monitor e a questão da conexão. Além disso, o preço estratégico de US$ 100 ainda não foi atingido. “Prometeram apresentar o protótipo em Túnis, onde será realizada, neste mês, a Cúpula da Sociedade da Informação. Vamos aguardar”, pondera.

Enquanto isso, as entidades acadêmicas envolvidas – LSI da USP, Cenpra do MCT, Certi de Santa Catarina – continuam trabalhando na validação técnica do que foi desenvolvido pelo MediaLab e indo além. O design do computador produzido no Brasil, pouco maior que um caderno, é, segundo Alvarez, muito mais bonito do que o produzido no MIT.

Adiar a decisão para dezembro tem a grande vantagem de aprofundar a discussão e adotar a decisão de aderir ou não ao projeto de Negroponte com argumentos mais sólidos e maior apoio social. A desvantagem é a corrida contra o tempo para incluir recursos no orçamento de 2006 que, pela expectativa inicial, deveria contemplar verba para a compra de 300 mil máquinas.

Computador na escola

É consenso entre educadores e especialistas que a aplicação de tecnologias na educação - em especial a chamada comunicação mediada pelo computador, que nada mais é do que o acesso, via computador, às redes do conhecimento - é uma ferramenta fundamental para acelerar o aprendizado. Mais do que isso. É uma nova forma de aprender. A educação tradicional, lembra o relatório do grupo de trabalho do projeto, nasceu e amadureceu em função da economia industrial e é uma emulação da linha de produção – um sistema estanque e compartimentado. Com o projeto, o que se quer é iniciar um processo que fomente a evolução desse sistema “para um modelo adequado para a sociedade da informação, que tem seus alicerces nas redes de comunicação e que, portanto, exige um sistema educacional baseado em processo”.


O Computador poderá ser usado como um caderno.

Se ninguém discorda dessa nova visão do processo de acesso ao conhecimento por parte dos alunos, o projeto de Nicholas Negroponte encontra restrições em vários segmentos. Primeiro, alguns o consideram caro para um país em desenvolvimento, como o Brasil, que tem um grande déficit educacional, especialmente em termos de qualidade de ensino. E a baixa qualidade, que faz com que 55% dos alunos da 4ª série do ensino fundamental não saibam ler e escrever satifatoriamente, de acordo com a amostragem do Sistema Nacional de Avaliação Básica (Saeb) de 2003.

Desse grupo de críticos faz parte Hélio Rotenberg, diretor geral da Positivo, empresa que construiu sua história desenvolvendo e adaptando aplicativos para a área educacional e hoje é, também, importante fabricante nacional de microcomputadores. Segundo Rotenberg, com o mesmo volume de recursos necessários para implantar o laptop de US$100 é possível atender um número muito maior de crianças se o governo utilizar o dinheiro e investir nos laboratórios de informática das escolas públicas.

Outro problema, na visão de Rotenberg, é que o MIT não tem experiência educacional, na formação de professores por exemplo, em larga escala. “No Brasil, é preciso ter uma proposta pedagógica firme e consistente em larga escala. Não adianta pensar que basta só colocar o computador, e o professor vai se virar sozinho. Não se vira. Não adianta importar modelos de fora”, argumenta. Também Carlos A.Afonso, diretor de planejamento e estratégia da Rits ( Rede de Informações do Terceiro Setor, uma ONG voltada a projetos de inclusão digital) vê o projeto com cautela. Sua experiência com financiamentos de entidades estrangeiras para projetos locais revela que, sempre com o equipamento, tentam embutir software e aplicativos que nada têm a ver com a realidade local.

Negroponte se contrapõe a essas dúvidas informando, como na apresentação que fez em São Paulo no dia 31 de outubro, que o equipamento usará software livre e será compatível com redes sem fio. Que o preço será baixo porque o computador não será vendido ao mercado, mas a governos – portanto, não precisará de marketing, que representa metade do custo de uma máquina -, e que as especificações de uma máquina educacional não precisam de grande sofisticação, ou seja, dispensam os atuais monitores. Mas resolver a questão da tela ainda é um problema para os desenvolvedores do MediaLab. Para ele, a vantagem do computador individual por aluno em relação às salas de informática é que, ao poder levá-lo para casa, ele teria um uso muito mais intenso pelo estudante, pela família, pelo grupo de amigos, permitindo uma apropriação maior e mais contínua do conhecimento.

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