Dia da Internet Segura - 2012
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Entrevista - TV digital: o que a gente tem a ver com isso?


As inovações tecnológicas estão mudando o perfil do negócio tradicional da TV e do rádio, da TV por assinatura (por cabo ou satélite) e mesmo das operadoras de telefonia. Com a transmissão de informações no formato digital, cada uma dessas redes vai poder oferecer novos serviços. Alguns exemplos: internet na TV, cinema na linha telefônica, TV no celular. Nesse cenário, o Brasil discute qual  modelo de TV digital adotar. Nesta entrevista, André Barbosa Filho, assessor especial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, explica o que está em jogo, qual é o interesse dos empresários de rádio e televisão, e relata os objetivos do projeto do governo, chamado Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD).

Os resultados desse projeto serão entregues ao presidente da República no dia dez de fevereiro de 2006, para que ele defina a tecnologia a ser adotada pelo Brasil. Barbosa e outros integrantes do SBTVD defendem a escolha de um modelo híbrido (misto) - para oferecer soluções de ponta a quem puder pagar por um televisor digital e, ao mesmo tempo, levar o sinal, por meio de um conversor, a quem só vai poder comprar um televisor digital quando o preço cair. Para a indústria de televisores, essa é uma questão importante, porque vai determinar quem poderá vender no mercado brasileiro. Para operadoras de telecomunicações e grupos de comunicação, como a Globo, significa a oportunidade de oferecer novos serviços e o risco de sofrerem uma concorrência maior. E para a sociedade? Se for adotado o modelo híbrido, mesmo os brasileiros de baixa renda vão poder ter, além de um melhor sinal de TV, acesso a serviços interativos, como governo eletrônico.
Patrícia Cornils

ARede – As inovações tecnológicas conduzem à chamada convergência, que permite à rede de telefonia transmitir vídeo, ao celular receber música e à TV digital transmitir aplicativos com interatividade, por exemplo. O que vai acontecer com as comunicações?

As demandas sociais devem
determinar as escolhas tecnológicas.
André Barbosa Filho – Acreditamos que são as demandas sociais que devem determinar nossas escolhas tecnológicas, ao contrário do pensamento ainda presente na sociedade brasileira, e que acompanhou o processo de privatização, segundo o qual é a inovação que determina o comportamento e que, na prática, prioriza os interesses empresariais, uma posição derivada das idéias de Schumpeter, o economista austríaco.

No caso da TV digital, os radiodifusores sabem que, com a digitalização de suas redes, com as novas tecnologias, vão poder oferecer novos serviços ao público, inclusive serviços interativos e de dados. Querem fazer avançar seus negócios e têm preferência pelo sistema japonês. Mas, apesar de o sistema japonês ser evoluído e tecnicamente muito bem feito, ele atende até agora, principalmente, a interesses das emissoras, sem levar em consideração o ponto de vista da inclusão digital, ou da inclusão social.

Com o HDTV, ou a TV digital de alta definição, como é o padrão japonês, vamos ter um processo elitizado de digitalização. Porque um televisor de HDTV custa, hoje, uma fábula. Varia de US$ 1,5 mil até US$ 20 mil; os set top boxes também são caros, na faixa dos US$ 500, tem até de US$ 1,5 mil. No Brasil, a população que poderá ter acesso a essa tecnologia, no curto e médio prazos, é pequena. Estamos falando, no máximo, de 7% da população. Um contingente maior do que aquele que usa a TV por assinatura – cerca de 3,6 milhões de domicílios –, mas ainda assim muito pequeno. Então, não se pode pensar o Brasil, do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico, sem que se resgate a dívida social; sem discutir contrapartidas sociais ou os investimento das empresas que vêm explorar comercialmente as oportunidades do país.


ARede – Quais são os interesses sociais que estão sendo considerados no projeto do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), desenvolvido pelo governo?
André Barbosa Filho – Em um rápido resumo, o SBTVD é um trabalho coordenado pelo CPqD, que tem a Finep, do Ministério da Ciência e Tecnologia, como braço administrativo. Foram montados 22 consórcios com 73 universidades que, em dez de dezembro, vão apresentar o seu trabalho. É o maior projeto integrado universitário do Brasil, fora o Genoma. Já gerou, até hoje, 80 inovações. Número que, para um país latino-americano, é muito alto em relação a registros de domínios e de patentes.

Quais pedidos foram feitos pelo governo aos parceiros para atender as demandas sociais? Primeiro, universalização. A gente quer que todo brasileiro que tem uma televisãozinha de 14 polegadas, colorida ou preto e branco, com antena interna, receba sinal digital. Para isso, o sistema precisava ser robusto, ter mobilidade e interatividade mínima (que possa ter aplicativos residentes). E a universidade tem que resolver esses problemas. Porque os sistemas internacionais que nos ofereciam não pensavam nisso, porque a realidade deles não é assim.

ARede – Quais os resultados ?
André Barbosa Filho - Já foi produzida muita coisa. Nosso middleware é o único do mundo que permite SDTV (SuperDefinition Televison, sistema standard); oferecer, no mesmo canal, várias programações (multiprogramação), aumentando a oferta de canais. O que para nós é fundamental, porque permite fazer inclusão. Se você tiver monoprogramação, vai manter os mesmos fatores atuais; como está pensando em fazer, por exemplo, o rádio digital, hoje. A TV digital multiprogramação vai permitir que você seja detentor ou não de um canal integral (em que cabem 19 bits de conteúdo), que faça várias programações naquele canal (reunir várias rádios comunitárias, por exemplo), e, se for o caso, que ceda aquele canal para outros atores diferenciados, dependendo da política e do modelo definido. É nisso que estamos trabalhando agora.

Esse middleware e o set top box desenvolvido possibilitam uma integração, na qual se faça, ao mesmo tempo, HDTV (High Definition TV, sistema sofisticado, com imagens tridimensionais e interatividade) e SDTV (SuperDefinition TV, com menos recursos). Isso é importante. É um sistema híbrido, que aceita várias possibilidades: você pode usar metade do canal para broadcasting, metade para serviços; 2/3 para broadcasting, 1/3 para serviços; ou vice-versa. O consórcio pensou maneiras diferenciadas para usar outros canais, de modo que você conviva com tecnologia de ponta – para quem tem dinheiro para comprar um televisor de plasma, um set top box sofisticado – e, ao mesmo tempo, que a pessoa que tem só o sistema Standard(S), que é o que a maioria pode ter, receba o sinal convertido. O usuário do sistema S, é verdade, vai poder acessar alguns poucos serviços adicionais, como de governo eletrônico, de banco, etc. O S é uma transição. Na Europa, está servindo para oferecer TV digital para quem pode pagar HDTV e para quem não pode. E, além do usuário, há o lado do produtor cultural. Quem vai ter condições de desenvolver conteúdo para HDTV? Só grandes produtoras, como a Casablanca e a TV Globo. Os demais ainda não podem.


ARede – Que nível de interatividade existe no sistema S? Estamos falando de internet?
André Barbosa Filho - Em alguns casos, sim. Por exemplo, onde não há problemas de freqüência, fora das grandes regiões metropolitanas, onde há pouca densidade populacional, você pode usar  internet. O CPqD fez esse desenvolvimento, chamado BR Net, Banda Larga Net, agora em testes. Nas áreas onde onde há problema de espectro, o mais barato seria fazer por rádio. Mas fizemos uma outra proposta. Trabalhar com internet e interatividade, através de sistemas integrados, usando recursos, como a Europa fez no DVDH, onde você usa a rede telefônica para fazer interatividade. Aí você não pode usar o padrão japonês. Tem que usar o sistema europeu. Ou seja, estamos desenvolvendo inovações e, ao mesmo tempo, usando sistemas internacionais. Não podemos fazer TV digital só para conseguir a melhoria do sinal, ou só considerando o interesse corporativo. Trata-se de uma concessão pública. Portanto, o interesse social tem que ser levado em conta.

ARede - O sistema híbrido, ao permitir melhorar o sinal, não contempla o interesse dos radiodifusores?
André Barbosa Filho - Do ponto de vista do uso, do broadcasting e do multisserviço dentro da faixa de radiodifusão, o europeu não está incluído. Porque, no padrão europeu, é preciso usar o telefone para ter interatividade, o que obriga as emissoras a fazerem acordo com a operadoras de telecom. Já no padrão japonês, a interatividade e a mobilidade são feitas dentro dos 19 bits, dentro da faixa de radiodifusão. Ou seja, com o modelo japonês, o radiodifusor acredita que está protegendo seu negócio, porque cabe a ele a decisão do que vai levar dentro dos 19 bits.

ARede – Então você acredita que, do ponto de vista do interesse social, o modelo europeu, que recepciona o sistema híbrido, é o mais adequado?
André Barbosa Filho – Neste momento, é o que nos oferece mais possibilidades. Primeiro, não é proprietário; posso pegar as inovações européias e utilizar no Brasil sem pagar royalties. Já o sistema japonês é proprietário. O europeu, ao permitir desenvolvimento, pode representar investimento no Brasil para centros de pesquisa. Soubemos que a Comunidade Européia ainda dispunha de recursos residuais de um plano de investimento em TV digital, que cobre até 2006, e fomos atrás, com um projeto desenvolvido pelo CPqD, a pedido nosso, envolvendo software para conteúdo. Agora, no dia 1º de novembro, estamos recebendo uma comitiva, para discutir o financiamento de um centro de excelência aqui no Brasil, em Campinas. Queremos desenvolver software de conteúdo para o mercado internacional. Qualquer acordo que vier a ser feito com sistemas integrados implica a possibilidade de uso das inovações brasileiras. Ou latino-americanas, se fecharmos acordos com a América Latina. Isso envolve o set top box, o middleware, o sistema integrado de antenas, o projeto integrado de modulação, o codificador de vídeo, os projetos em desenvolvimento e que vão ser entregues em dezembro – os europeus acenam com a possibilidade de agregar nossas soluções a um sistema internacional. Não é porque são bonzinhos. Eles querem participar dos ganhos e investir em outros centros. Porque há uma expectativa de que, nos próximos dez anos, a América Latina vai rodar algo em torno de US$ 20 bilhões em conteúdo.

Agora, há a possibilidade de os representantes dos padrões japonês e norte-americano oferecerem condições equivalentes ou melhores para tentar ganhar o jogo. É isso que estamos esperando. O importante é que a discussão seja aberta e clara.


ARede – O que é essa indústria do conteúdo?
André Barbosa Filho - Aqui se abre um novo capítulo, que é o da indústria criativa, para municiar de conteúdo as plataformas digitais que permitem a integração de informações, não mais lineares. Com a integração, você pode ter imagens e sons superpostos, textos levados ao longo da transmissão, a possibilidade de alteração desses conteúdos na ponta, por isso chamada de open source (fonte aberta), tudo isso em discussão. E não temos massa crítica para fazer esses desenvolvimentos. Então, não podemos ficar de braços cruzados. Vou dar o exemplo da Irlanda. Há 15 anos, era o chapéu roto da Europa. O governo irlandês percebeu que podia investir em algo para o futuro, justamente a indústria criativa, tocada por jovens de 14 a 30 anos que trabalham individualmente, ou em dupla, criando e construindo  linguagens digitais. Que rodam em plataformas digitais e podem ser individualizadas ou podem ser incorporadas por empresas.

A Irlanda é um dos players mais agressivos por ter incluído, em sua economia, a indústria criativa que gera programas modulares. Esses módulos permitem a superposição de informação e a interatividade. No caso da TV, a Inglaterra é que está na frente. A Granada Television e a BBC estão investindo muito pesado no que consideram o diferencial da TV digital, que é a conjugação entre a melhoria do sinal de TV e a oferta de multisserviços. Nós temos, por objetivo, investir na indústria criativa local. Vamos ter conteúdo mais barato com participação da produção alternativa.


ARede - No caso da TV digital, como conciliar as demandas sociais com o calendário das emissoras, que querem a TV digital para a Copa de 2006?
André Barbosa Filho – Os consórcios vão entregar seus projetos em 10 de dezembro, e o CPqD terá dois meses para fazer a consolidação e entregar a proposta com todos os elementos para o presidente da República tomar a decisão: de usar o sistema brasileiro por excelência e adiar o acordo com um padrão internacional, que não é o que quer o ministro das Comunicações, Hélio Costa; ou de adotar um deles. Até lá, o debate vai continuar. E ele é importante porque, ao expor outros argumentos, diminui a chance de os radiodifusores pressionarem por uma decisão de afogadilho na direção do que lhes interessa.

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