Dia da Internet Segura - 2012
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Capa - Internet: novas tecnologias facilitam o acesso.


Hoje, para ter acesso à internet, ninguém depende mais só da rede das operadoras de telefonia ou de TV por assinatura. Tecnologias de acesso sem fio ou pela rede elétrica podem baratear o acesso, ou fazer com que seja oferecido onde a rede telefônica não chega ou não tem banda larga. Municípios e governos começam a usar essas tecnologias para oferecer internet aos cidadãos. E a pressão popular ajuda a colocar esses projetos em marcha.  Patrícia Cornils

Teutônia é uma cidade de 25 mil habitantes no Rio Grande do Sul, onde qualquer um dos cerca de 9 mil moradores associados à Certel – Cooperativa Regional de Eletrificação – pode contratar, da própria cooperativa, um acesso de banda larga por R$ 69,00 mensais. O serviço é oferecido por uma rede Wi-Fi e começou a ser vendido pela Certel em 2001, quase três anos antes de a Brasil Telecom oferecer ADSL (serviço em banda larga pela rede telefônica) na cidade. Até então, era necessário fazer chamadas interurbanas para navegar. Em Piraí, no alto da Serra das Araras, Rio de Janeiro, a Prefeitura é o provedor de internet banda larga, por meio de uma rede própria que interliga 25 escolas (15 delas com laboratórios de informática), Associações de Pais e Amigos de Excepcionais, postos de saúde, repartições públicas, seis telecentros e 11 quiosques para navegação gratuita. De formas distintas, as duas cidades resolveram localmente a questão do acesso em banda larga usando tecnologia sem fio, cada vez mais barata. No caso de Piraí, aconteceu algo mais importante: em vez de escolher em qual escola, telecentro ou posto de saúde colocar uma conexão ponto-a-ponto, a Prefeitura criou uma rede pública à qual a cidade tem acesso universal.

As organizações não-governamentais, prefeituras e governos que criaram projetos de tecnologia para inclusão social ainda pensam nas conexões internet como uma questão ponto-a-ponto. Cada vez mais, no entanto, tecnologias como Wi-Fi, Wi-Max e mesmo a conexão pela rede elétrica (PLC, sigla em inglês para power line communication, ou comunicação pela rede elétrica) reduzem o custo de implantação de redes de comunicação, principalmente não há rede telefônica disponível ou com qualidade técnica para oferecer um acesso em banda larga. Essas novidades tornam acessível a outras entidades – e às próprias operadoras de telecomunicações - implantar suas redes. E favorecem o surgimento de iniciativas do poder local, como a da prefeitura de Sud Menucci, em São Paulo (saiba mais) e da prefeitura de Piraí. Ou de empresas como a Eletropaulo, que, em convênio com a Companhia de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, implantou uma rede PLC em cinco condomínios populares do bairro da Moóca, na capital paulistana. Nesse caso, a inclusão digital veio como conseqüência do baixo custo da tecnologia. Assim: a adoção do PLC permitiu uma redução de 34% no custo de implantação dos sistemas prediais (redes de água, luz e gás), e de 8% no custo total da obra. Como, pela mesma linha elétrica, pode-se enviar sinais de internet, a tecnologia pode ser usada para conectar os moradores dos prédios, que ganham entre um e cinco salários mínimos, à rede.

Baixa oferta

Ainda é muito pequena a oferta de conexões em banda larga no Brasil: são 2,8 milhões de acessos do serviço em banda larga pela rede telefônica (ADSL), equivalente a menos de 10% dos 39 milhões de telefones fixos em serviço, e mais 452 mil pelas redes de TV por assinatura (por cabo, satélite e rádio). O ADSL (com as marcas Speedy, Velox e BR Turbo) só existe em parte dos grandes centros. Sua expansão não é tão rápida quanto gostariam os usuários de conexões discadas porque as concessionárias – Brasil Telecom, Telefônica e Telemar – não se dispõem a investir na melhoria da rede para oferecer acesso em banda larga, em bairros e localidades onde a demanda é pequena para justificar o dinheiro aplicado.

“O negócio de telecomunicações, em sua plenitude, está somente em 238 cidades brasileiras. Esse é o mercado”, afirmou Rogério Santanna, secretário de Logística e Tecnologia da Informação (SLTI) do Ministério do Planejamento, na 4ª Oficina de Inclusão Digital, realizada em outubro no Rio de Janeiro. São municípios com alta concentração urbana – o que significa mais clientes potenciais para a mesma rede -, onde há 5,7 milhões de domicílios das classes A e B, com 20,7 milhões de habitantes, de acordo com um estudo da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil). Em meados de 2005, o ADSL havia chegado a pouco mais da metade desses domicílios. Mesmo nessas cidades, no entanto, há áreas de grande concentração urbana sem poder aquisitivo. São 36,4 milhões de domicílios, habitados por 127,8 milhões de brasileiros das classes C, D e E. Em 64% dessas casas há linhas telefônicas, mas nem sinal de banda larga.

Corredor digital

É o caso da favela de Acari, no Rio de Janeiro, onde a Central Única das Favelas (Cufa) mantém um telecentro. Na comunidade, onde vivem 5 mil a 6 mil pessoas, a Cufa paga R$ 1,2 mil por mês para ligar o telecentro ao mundo, por uma conexão via satélite da Star One. Cerca de mil pessoas são usuárias do telecentro, de acordo com Flávia Caetano, da Cufa, e esse público é o motivo pelo qual a entidade  ainda não deixou de pagar a conexão: R$ 1,2 mil por mês é muito dinheiro e a possibilidade de desligar a antena é seriamente considerada sempre que a conta chega. A base da Cufa em Acari, diz Flávia, está a cinco metros de um prédio com conexão ADSL, mas “o serviço não chega à Cufa porque, de acordo com a Telemar, a distância entre nós e a central telefônica não garante um bom sinal”. E a Telemar não se dispõe a investir na rede, colocando, por exemplo, um repetidor entre a central e o ponto da Cufa porque entende que o investimento, para se justificar, precisaria ter vários outros clientes de banda larga além da Cufa.

Santanna, da SLTI, acredita que o Estado deve incentivar o uso de novas tecnologias. “Precisamos experimentar coisas novas, de forma a encontrar soluções mais baratas e adequadas a um país pobre”, explica. “Combinar diferentes recursos, como redes ociosas de fibras ópticas, de forma a aumentar o conjunto de iniciativas e fazer coisas que não têm visibilidade comercial ganharem visibilidade social”, afirma. Para que realmente ganhem visibilidade social, essas iniciativas têm que ser discutidas com a sociedade. No caso de Piraí, o Conselho da Cidade participou da elaboração do plano diretor digital. O mesmo acontece em Rio das Flores (RJ), onde o conselho de governança local decidiu, por exemplo, em que lugares a rede deverá ser implantada primeiro.

O governo do Estado, em cooperação com a Proderj, a Faperj, os coordenadores do Piraí Digital e a Associação de Prefeitos do Rio de Janeiro (Apremerj), vai reproduzir a iniciativa de Piraí em outras cidades do Rio de Janeiro, com o projeto Município Digital. A primeira a participar é Rio das Flores, com 8 mil habitantes, na região do Médio Paraíba, a mesma de Piraí. A meta do programa é iluminar, com tecnologia Wi-Fi e Wi-Max, vários municípios e criar um corredor digital no estado do Rio, passando por Parati, Angra dos Reis, Mangaratiba, Rio Claro, Piraí, Barra do Piraí, Rio das Flores. Cada projeto deve se integrar às particularidades do município. Em Conservatória, há uma iniciativa para transmitir as tradicionais serenatas da cidade, por webcast. As redes comunitárias vão se interconectar com Infovia.RJ da Proderj, que já passa por 70 municípios. Cidades com menos de 50 mil habitantes são o foco do Município Digital.



Os fornecedores se mexem


No que diz respeito à infra-estrutura de tecnologia, os fornecedores já se movimentam para oferecer seus produtos às comunidades. É o caso da Intel, que realizou projetos-piloto com a tecnologia Wi-Max em Brasília, Ouro Preto, Magaratiba (dentro do projeto Município Digital) e se prepara para implantar, em convênio com a Prodam, conexões Wi-Max em órgãos da Prefeitura de São Paulo que têm dificuldade para receber acesso tradicional, como as Unidades Básicas de Saúde que a Prefeitura tem como meta informatizar até o final do ano. A Nortel discute com oito municípios de Minas Gerais e São Paulo, todos com mais de 150 mil habitantes, projetos com tecnologia Mesh. Em simulações feitas pela Nortel, pode-se oferecer um acesso em banda larga (de 1 Mbps) por R$ 10,00 mensais, se a rede tiver 4 mil usuários. “Estou animado porque, com esse tipo de tecnologia, enxergo um caminho para as comunidades terem serviços em banda larga. Os projetos com tecnologias mais tradicionais não fechavam a conta”, diz Newton Scartezini, diretor de relações institucionais da Nortel.

A rede de Piraí foi implantada com cerca de R$ 600 mil e o de Rio das Flores está orçada em cerca de R$ 350 mil, de acordo com Tereza Porto, presidente da Proderj. Ela explica que a meta do Município Digital é implantar uma infra-estrutura de tecnologia da informação para romper o “isolamento digital” e reverter o quadro de estagnação social e econômica. Para isso, não basta a implantação de infra-estrutura. É essa a razão pela qual os convênios com os municípios incluem, além de assessoria técnica para a implantação das redes e link com a Infovia.RJ, a colaboração para o desenvolvimento de sistemas integrados de serviços de educação, saúde, economia solidária e telecentros como agências de desenvolvimento comunitário.

Em Piraí, a elaboração de um Plano Diretor de Tecnologia começou em 1997 e se tornou necessária depois que a Light e a fábrica de papéis Pirahy realizaram demissões e fecharam 1,5 mil postos de trabalho, em uma cidade de 23 mil habitantes. A digitalização foi integrada a outras iniciativas, nas áreas administrativa e de serviços públicos. Além disso, a prefeitura colocou em prática um plano para criar um distrito industrial e atrair novas empresas à cidade. Como era um projeto de desenvolvimento local, não exclusivamente de implantação de uma rede, a Prefeitura de Piraí conseguiu recursos de várias fontes: enquadrou o projeto no Programa de Modernização da Administração Tributária (PMAT), do BNDES, porque os recursos foram usados para integrar as secretarias em rede. Usou também recursos do orçamento da Educação, porque o programa conectou as escolas e capacitou professores.

A Certel, de Teutônia, não teve dificuldade para se tornar um provedor de acesso. Bastou pedir uma licença de Serviço de Comunicações Multimídia (SCM) para a Agência Nacional de Telecomunicações. No caso de Piraí, o processo foi mais complicado, porque não existia, na legislação de telecomunicações, a idéia de que uma Prefeitura pudesse pedir uma licença. Quem solicita uma licença de SCM deve apresentar, por exemplo, inscrição no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA), inscrição municipal e comprovação de que não tem dívida com a Prefeitura. Além disso teve que criar a figura jurídica do “direito real de concessão de uso oneroso” da rede para poder cobrar uma tarifa pública de acesso a internet. Aos clientes domésticos de banda larga, a prefeitura cobra de R$ 35,00 a R$ 60,00 por mês. Esses recursos vão para um fundo de tecnologia do município e são usados para a manutenção dos telecentros e laboratórios nas escolas. Outra boa discussão gerada pelo caso de Piraí, explica Franklin Coelho, coordenador do projeto, diz respeito à abrangência das áreas de cobertuta definidas pela Anatel para licitar novas freqüências. No caso do Serviço de Comunicação Digital (SCD), diz ele, as áreas de cobertura previstas  eram tão amplas que as prefeituras não conseguiriam “comprá-las”.

Para cidades pequenas

A importância da tecnologia PLC, no caso da inclusão, é que ela pode fazer surgir um novo prestador de serviço de acesso: a companhia elétrica. A cobertura das redes de distribuição dessas empresas é maior do que a das redes telefônicas e, de acordo com Pedro Jatobá, presidente da Aptel (Associação de Empresas Proprietárias de Infra-estrutura e Sistemas Privados de Telecomunicações), o PLC pode ser uma forma de as distribuidoras de energia gerarem mais receita com sua rede. O foco dos projetos em desenvolvimento pela Aptel são municípios de até 50 mil habitantes, que geralmente possuem um pequeno núcleo urbano cercado de manchas de ocupação rural. “São cerca de 2 mil municípios brasileiros, que concentram uma significativa parcela da população e raramente possuem uma oferta de serviços de telecomunicações”, constata ele.

Nessas localidades, onde está presente a distribuidora de energia elétrica, a oferta de diversos serviços sobre a mesma infra-estrutura (energia, medição, internet, telefonia) pode reduzir o custo de cada um deles. Hoje, o custo de implantação de uma rede PLC é calculado em R$ 300,00 por acesso. A diferença entre esse modelo e o das Prefeituras é que, aqui, trata-se de uma empresa que, para valorizar sua infra-estrutura, pretende oferecer um serviço a custo menor e maior disponibilidade do que as concessionárias de telecomunicações. Esse modelo ainda está em elaboração, mas Jatobá acredita que o PLC será um bom instrumento para a inclusão nos locais e aplicações onde ele possa significar uma redução real dos custos de acesso.

www.piraidigital.com.br
www.certel.com.br
www.aptel.com.br – Notícias e estudos sobre PLC
http://www.intel.com.br – Na sala de imprensa, notícias sobre os testes em Mangaratiba, Ouro Preto e na Prodam, em São Paulo.


Comentários  

 
0 #1 RE: Capa - Internet: novas tecnologias facilitam o acesso. — luiz carlos j. raymu 22-10-2010 13:10
Sobre a matéria da internet em pirai, realmente ha varios quiosques com terminais de acesso a internet e em varios órgãos públicos. Porém há muito tempo que não funcionam r onde funciona é muito lenta.
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