Dia da Internet Segura - 2012
  • Home
  • Quem Somos
  • Fala Leitor
  • Para Receber a Revista
  • Anuncie
  • Cadastre-se
  • Busca

ARede


  • Notícias do dia
  • Agenda
  • Revista ARede
  • Fotografite
  • É Nóis
  • RSS

Capa - Monitor: é ele quem faz a diferença.


Atualmente, existem no país cerca de 3 mil pontos públicos de acesso à internet ou de aprendizado de informática. Cada um deles tem dois ou três responsáveis – os monitores. Isso significa que entre 6 mil e 9 mil pessoas se dedicam a orientar cidadãos no uso das tecnologias da informação e da comunicação. São encarregadas da gestão dos centros, da recepção e orientação dos usuários e, mais importante, integrar esses equipamentos às iniciativas comunitárias. Nesta reportagem, a história de algumas dessas pessoas. Patrícia Cornils *

Selma dos Santos Pereira caminha quase duas horas por dia, em uma estrada que acompanha um matagal, para chegar ao ponto do ônibus que a leva ao trabalho. Caminha para economizar o valor de uma condução. Moradora de Embu Guaçu, na Grande São Paulo, ela é, há cinco anos, monitora de um telecentro na zona sul da cidade. Recebe R$ 450,00 por mês pelo trabalho de orientar os usuários e dar aulas de informática. Seus quatro filhos, de 10 a 18 anos, não têm computador. São crianças como eles que lotam o telecentro do Jardim Copacabana desde sua inauguração, no ano 2000. Com 34 anos, Selma gosta de se identificar como Amles Jamaika, nomes que usava na capoeira e quando fazia dança afro. “Jogando e dançando, aprendi que um momento de aula pode se tornar um momento de arte, de passar coisas para seu irmão”, explica. É desses pequenos orgulhos que ela alimenta sua atividade diária. “Quando comecei, eu não sabia nada de informática. Hoje sei o suficiente para ensinar uma classe inteira”.

Rodrigo Felha é coordenador do Núcleo de Audiovisual da Central Única das Favelas (Cufa), na Cidade de Deus, bairro do Rio de Janeiro. Também há cinco anos começou a trabalhar com vídeo, na gravação do documentário Falcão, com o músico MV Bill. Militante da Cufa, Rodrigo, 26 anos, se engajou como monitor da Casa Brasil a ser inaugurada na Cidade de Deus. Sua principal preocupação é atender à demanda que a inauguração do telecentro, em breve, vai gerar. A Casa Brasil vai abrigar o único ponto público de acesso à internet em um local com 160 mil moradores. “Não quero perder ninguém; tenho que encontrar uma forma de manter as pessoas aqui, mesmo quando não houver vaga no telecentro”, diz ele. A Cufa também oferece, no espaço onde vai funcionar a Casa Brasil, cursos de basquete, grafite, break e vai abrir aulas de capoeira. Com a renda fixa de R$ 450,00, seu salário como monitor, vai poder continuar se dedicando ao audiovisual. Rodrigo promove oficinas na Cufa, produz filmes e estuda direção de cinema, na escola Darcy Ribeiro.

Sandro Nunes da Silva, 32 anos, dá oficinas todos os sábados, como voluntário, na Escola de Informática e Cidadania (EIC) do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) no bairro de Rio Doce, em Olinda, Pernambuco. Ensina noções básicas de informática e de como se inserir no mercado de trabalho a jovens de 14 a 18 anos. Formado em História, estranha o vocabulário dos jovens da comunidade de baixa renda onde nasceu Chico Science, um dos criadores do movimento mangue beat e deu voz e referências a toda uma geração de jovens pernambucanos.

Chico cantava "computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro", música de Fred Zero4, do conjunto Mundo Livre SA. Nas aulas, Sandro discute relações de trabalho e ensina pessoas com parcas possibilidades de entrar no mercado formal a elaborar seus currículos. Ele acredita que o contato com a informática, proporcionado por essas aulas, se tornará um trabalho perdido, se não for realizado de forma contínua. “A coisa mais importante que faço é mostrar às pessoas que elas podem se superar, aprender, usar informática. Mas nenhum deles tem computador em casa, e para dar um conteúdo maior seriam necessários mais cursos”, afirma.


Selma:" Uma aula é um momento
de passar coisas para seu irmão".
Um pouco de tudo

Muitos brasileiros têm uma atividade semelhante à desses três profissionais. Atualmente, existem no país entre 2 mil e 3 mil pontos públicos de acesso à internet ou de aprendizado de informática, no caso das EICs. Cada um deles tem dois ou três responsáveis. Isso significa que entre 4 mil e 9 mil pessoas, hoje, dedicam-se a orientar cidadãos no uso de tecnologia. Elas são encarregadas da gestão dos centros, da recepção e orientação dos usuários, de dar aulas e, mais importante, integrar esses equipamentos sociais às iniciativas comunitárias. Por isso, quase sempre são moradores das comunidades onde funciona o telecentro. “O monitor é a junção de várias atividades de diversas profissões”, diz Edimilson Ferreira Nonato, 33 anos, que trabalha no Infocentro Achave, do programa Acessa São Paulo, localizado em Parelheiros, zona sul da cidade. “Você acaba sendo pedagogo, psicólogo, um pouco de tudo”.

Edimilson recebe R$ 620,00 mensais, mais vale-refeição e vale-transporte, com registro em carteira. Trabalha em um infocentro do Estado mais rico do país. Em outras regiões, o trabalho dos monitores é, muitas vezes, voluntário. Eles são militantes de associações e movimentos, e faz parte de sua atividade política a manutenção do telecentro. “Há locais onde, sem a existência de voluntários, não haveria telecentros”, diz Cristina Kiomi Mori, do Observatório Nacional de Inclusão Digital. Em algumas cidades, eles conseguem mostrar às prefeituras a importância do centro de acesso, de modo que a administração municipal assume, então, o pagamento da mão-de-obra.

Mas não sem pressão. O telecentro de Altamira, na beira do cais do rio Xingu (PA), um dos três da Rede da Floresta – Topawa Ka'a, ficou fechado de 12 de fevereiro a 25 de abril deste ano, até que a prefeitura cumprisse o compromisso de pagar o salário de R$ 450,00 para o monitor e R$ 800,00 para o coordenador. “Trabalhamos seis meses com a promessa de que seríamos contratados, até que decidimos fechar”, diz Edilberto Freitas da Cruz, 43. Ele ganha menos do que os R$ 800,00 mensais que Marcelo Martins, voluntário na Casa Brasil da Cidade de Deus, apura todos os meses com seu trabalho de produtor no grupo de funk Bonde do Tigrão. Marcelo tem orgulho do trabalho de voluntário. “Somos tão importantes quanto os coordenadores e monitores para a atividade do telecentro”, afirma.

Quanto maior for a consciência da sociedade de que o acesso à tecnologia da informação é um direito tão importante quanto educação e saúde, mais esse exército – profissional ou voluntário – vai crescer. Ainda devem ser inaugurados milhares de telecentros e escolas comunitárias de informática no Brasil. Por conta da concentração da renda, a democratização do acesso terá que ser realizada de forma coletiva. E por muito tempo. No caso dos telefones fixos, por exemplo, mesmo com o aumento no número de usuários, depois da privatização, há somente 40 milhões de linhas em operação no Brasil. Isso significa que cerca de 60 milhões de brasileiros têm acesso a linhas fixas apenas por meio de telefones públicos, de acordo com o cálculo de um diretor da Telemar. E o custo de uma linha, sem internet, é bem menor que o de um computador. A taxa de instalação de uma linha telefônica, em São Paulo, é R$ 88,00, e sua assinatura, R$ 38,13. Um computador do programa Computador para Todos custa R$ 1,4 mil.


Rodrigo (a esq.) e Marcelo:
 união na Cidade de Deus.
Dificilmente um telecentro se consolida sem um bom monitor. E a primeira característica procurada em um candidato por entidades como a Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits), a Comunitas, o sampa.org, o Coletivo Digital – que capacitam monitores para vários projetos de inclusão digital – é sua capacidade de se integrar com a comunidade. Na maior parte dos projetos, os monitores são indicados pelas entidades nas quais funcionam os telecentros, participam de uma capacitação e começam a trabalhar. As entidades indicam um número de pessoas, para capacitação, maior do que o de monitores a serem contratados. Assim, terão mais gente preparada, para trabalhar como voluntário ou substituir o monitor.

A segunda característica importante é a capacidade de se comunicar e de lidar com diferentes tipos de público. Essas, no entanto, são funções básicas, porque os monitores serão os responsáveis por mobilizar os recursos da comunidade para sustentar o centro – desde voluntários até patrocínios de entidades públicas e empresas ou moradores capazes de dar cursos. Fabiano Leal, 17 anos, faz exatamente isso na Escola de Futebol Projeto Futuro da Lagartixa.

Na escola de futebol, foi criado, com quatro computadores doados por empresas, um Espaço Jovem para o acesso e uso da internet pela comunidade da Lagartixa, na zona norte do Rio de Janeiro. Fabiano, monitor da Rede Jovem desde o ano passado, capacitou os monitores da comunidade e agora vai se mudar para lá. “Gosto daqui porque trabalhamos juntos, trocamos idéias, não há distância entre eu e os diretores da entidade”, explica. Agora, ele vai atuar também como mobilizador social e captador de recursos. “Vamos procurar formas e parcerias para mobilizar a comunidade, fazer cursos para jovens em outras áreas além de informática e, assim, aumentar as oportunidades e ampliar a visão de mundo deles”, explica.

Fabiano trabalha como voluntário e também foi assim que Daniela Guedes, ex-monitora da Rede Jovem, começou a trabalhar com tecnologia. Com a capacitação realizada pela Comunitas e ao longo do tempo de trabalho nos telecentros, ela percebeu que sua função estava inserida em um contexto bem maior do que o de ensinar informática. “Há monitores que acham que seu trampo é aperta-botão. Liga aí, faz isso, faz aquilo”, explica ela. “E há os educadores, que percebem que seu trabalho é de inclusão social e que o digital é somente um pretexto”, conta ela. A função do educador não é dar ao educando o treino técnico indispensável para adaptá-lo a uma realidade que não pode ser mudada, diz Paulo Freire. Ensinar não é transferir conhecimento, é criar possibilidades para que as pessoas realizem sua própria produção, sua própria construção.

Como o uso de tecnologias da informação é uma das formas de realizar essa produção, os monitores são preparados para fazer muito mais que ensinar informática. Os cursos de capacitação incluem noções de tecnologia e de gestão dos telecentros – que vai desde o cadastramento dos usuários até projetos de sustentabilidade. Além disso, eles têm aulas sobre diversos aspectos da relação entre o uso da tecnologia e a inclusão social. Alguns exemplos: na capacitação do projeto Casa Brasil, coordenada pela Rits em parceria com o Coletivo Digital, discutiram a relação entre o uso de software livre e inclusão digital. Na Comunitas, os monitores da Rede Jovem abordam questões do gênero e atendimento a pessoas com necessidades especiais. No sampa.org, fazem cursos de agentes de rede, ou de cidadania – onde se discute direito à informação, economia solidária, cooperativismo – para levar informações que ajudem a comunidade a explorar todo o potencial da rede. Dessa forma, as pessoas que se capacitam para trabalhar nos telecentros podem se tornar verdadeiros mediadores, ou seja, transitar conhecimentos entre diferentes segmentos sociais.

Entre dois mundos

Daiana Maciel, monitora da Estação Digital da Comunidade Novo Ar, em São Gonçalo (RJ), faz isso na prática. Graduanda de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela fez curso pré-vestibular comunitário na Novo Ar. Agora, além de trabalhar como monitora e dar aulas de informática, ela participa de um projeto no qual universitários que vivem na comunidade ministram oficinas de cidadania, comunicação e inclusão digital para 20 pessoas de 18 a 20 anos de diferentes níveis de escolaridade, a fim de compartilhar o conhecimento que têm. Daiana explica que o trabalho como monitora mudou sua visão de mundo e também mudou a comunidade. “Hoje sou uma pessoa melhor, porque entendo meu papel social e consigo fazer isso. E as pessoas da comunidade, tratadas com respeito, também se sentem mais cidadãs”, resume. Daiana receberá uma bolsa de um salário mínimo (R$ 300,00) da Fundação Banco do Brasil, por seis meses, como remuneração pelo seu trabalho. Depois, vai dividir com as outras duas responsáveis pelo telecentro a receita de R$ 50,00 a R$ 60,00 por dia, descontado o dinheiro da manutenção do local. “Cobramos R$ 1,00 por hora, para sustentar o espaço”, diz ela.

Ao aprender a lidar com tecnologia, atender ao público, dar aulas, elaborar projetos, buscar recursos para o telecentro, incorporar as iniciativas da comunidade aos espaços públicos, os monitores também ampliam seu próprio horizonte profissional. Por isso, muitos deles, depois de trabalhar nos telecentros, decidem fazer faculdade ou se capacitam para atuar em outros projetos comunitários. Daniela Guedes, por exemplo, conclui este ano o curso de licenciatura em Computação, focada na área de inclusão digital. A faculdade é da Fundação Santo André. “Decidi fazer essa faculdade para aprender mais metodologia. Estudo inclusão digital, educação a distância, trabalho com públicos diferenciados, porque toda a minha experiência de instrutora, até agora, foi com públicos especiais”, explica. Ela trabalhou com jovens em liberdade assistida, no Centro de Referência da Juventude da Prefeitura de Santo André, depois com pessoas portadoras de deficiência. Hoje trabalha para a ONG Associação de Volta para Casa, desenvolvendo atividades no núcleo de atenção psicossocial da Secretaria de Saúde do município, na coordenação de saúde mental. E completa o salário de R$ 700,00 por mês atuando em projetos de redução de danos para usuários de drogas.


Juarez: compromisso
com a comunidade.
Juarez Ramalho Marcelino, 22 anos, monitor do telecentro Santos Mártires, da Prefeitura de São Paulo, foi testemunha dos primeiros movimentos pró-inclusão digital que aconteceram em São Paulo, no ano 2000. “Em 2000, a gente discutia muito como os pobres iam encarar a revolução digital e serem excluídos mais uma vez, porque não tinham acesso à tecnologia. E as organizaçõs governamentais conseguiram sensibilizar o poder público para isso”, diz ele. Mesmo quando o telecentro fechou, por três meses, por falta de verba, antes de ser assumido pela prefeitura, ele continuou no projeto, por compromisso com a comunidade.

Pensar o futuro

Hoje, explica Juarez, a visão da necessidade de inclusão se confirma. “Há concursos públicos que só aceitam inscrições via internet; e quem não tem acesso está fora”, diz. Ele concluiu o ensino médio há dois anos, mas ainda não sabe como vai tocar sua vida profissional. “Eu não me enxergava trabalhando no telecentro até agora”, afirma. “É uma experiência importante, porque aprendi a me relacionar com as pessoas e com a informática. A ter o pessoal da comunidade trabalhando. O tanto de gente que se conhece é da hora. Mas, de repente, a gente tem que cruzar uma ponte”, ensina. Nem tudo é questão de só querer. Juarez pretende trabalhar com design gráfico, mas um curso no Senac custa R$ 700,00 por mês, muito dinheiro para o seu salário de R$ 450,00. Enquanto não encontra sua saída, ele trabalha no telecentro, faz teatro, compõe músicas. Comprou um computador há dois anos e já tem uma faixa “caseira” gravada. Chama-se Bravo.

* Colaborou Daniela Alves


www.telecentros.sp.gov.br
www.acessasaopaulo.sp.gov.br
www.cdi.org.br
www.cufa.com.br
www.comunitas.org.br
– Link para a Rede Jovem
www.redefloresta.gov.br
www.sampa.org
www.coletivodigital.org.br
www.rits.org.br

Comentários  

 
0 #2 Monitor / Orientador — jevan rocha 03-01-2011 11:50
Como orientador do telecentro mascarenhas de Moraes é muito satisfatório encontrar artigos como esse onde o destaque é :
Monitor é ele quem faz a diferença,
pois é isso o que mais nos agrada ajudar e fazer a diferença pois se nossa maior preocuapação fossem nossos salários certamente teriamos abandonado nossa causa.
Citar
 
 
+3 #1 RE: Capa - Monitor: é ele quem faz a diferença. — Vanessa 28-12-2010 08:47
Gostaria de saber se os monitores recebem salário pelas prefeituras ou pelo governo ?
Citar
 
Atualizar lista de comentários
Assine o RSS dos comentários

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Enviar
Cancelar
JComments

Adicionar Site aos FavoritosAdicionar Página aos FavoritosTornar Esta Sua Página PrincipalImprimir Esta PáginaSalvar como PDF
Pressione (Ctrl+D) para adicionar a página! Você precisa fazer isto manualmente! Preencha o forumlário abaixo
Close