Dia da Internet Segura - 2012
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Capa - Reciclagem: o computador com atitude.


O governo quer criar centros de recondicionamento de micros para apoiar projetos de inclusão. E o movimento MetaReciclagem se articula para levar ao hardware a mesma disposição de autonomia tecnológica que impulsiona o software livre. Patrícia Cornils e Verônica Couto

Todos os anos, cerca 4 milhões de novos computadores entram em operação no Brasil, em uma base estimada em 10,6 milhões pela IDC Brasil, instituto de pesquisa. A renovação do parque acontece a cada dois anos, ou menos, nos casos de contratos de leasing. Contando apenas os computadores do governo, que movimenta 40% do mercado de aquisições legais, isso significa que pelo menos 1,6 milhão de máquinas compradas em 2005 serão aposentadas, daqui a dois anos. Apenas a Caixa Econômica Federal (CEF) separou para descarte, no ano passado, 27 mil equipamentos. Enquanto o Banco do Brasil liberou outros 50 mil. Tal volume de máquinas aposentadas gera, de acordo com Rodrigo Assumpção, coordenador do Comitê de Inclusão Digital da Secretaria de Tecnologia e Logística da Informação (SLTI), do Ministério do Planejamento, uma oportunidade relevante para apoiar a inclusão no país. Ele avalia que o custo de um computador recondicionado é da ordem de R$ 143,89, enquanto um PC convencional, no mercado, sai por cerca de US$ 800.

Há outro motivo para reciclar esses computadores. Cerca de 94% dos materiais usados nas máquinas são recuperáveis. Se não forem reutilizados, os computadores viram lixo tecnológico: ocupam espaço nos caros aterros sanitários ou contaminam solos, rios e lençóis subterrâneos com sua alta concentração de metais pesados, como cádmio, chumbo e mercúrio. Em 1989, a Convenção de Basiléia – que regulou a movimentação de resíduos tóxicos entre países – conferiu, ao lixo eletrônico, a categoria de resíduo perigoso, sujeito ao banimento.

Várias iniciativas visam a reciclagem de computadores no Brasil. Existe, no governo federal, um projeto chamado Computadores para Inclusão (CI). Envolve a construção de grandes Centros de Recondicionamento e Reciclagem de Computadores (CRCs), idealizados para dar escala à captação de componentes e máquinas descartadas, formar e capacitar pessoal de baixa renda para mexer com hardware e software, e para servir de fonte fornecedora de equipamentos para programas de inclusão digital. A proposta dos CRCs foi elaborada na SLTI e começa a ser posta em prática no Rio de Janeiro e no Distrito Federal.

Fora do Executivo, outras duas iniciativas estão concentradas no aproveitamento social de material de informática descartado: o MetaReciclagem, movimento descentralizado que prega a autonomia tecnológica no hardware e no software; e a campanha MegaAjuda, da regional de São Paulo do Comitê para Democratização da Informática (CDI), que coleta micros doados e os destina às Escolas de Informática e Cidadania (EIC) da sua rede. Desde o ano 2000, quando iniciou a campanha, o CDI-SP recebeu 6,6 mil PCs e 800 laptops.

A experiência mais adiantada do projeto Computadores para a Inclusão, segundo Rodrigo Assumpção, da SLTI, é a do CRC do Gama, cidade satélite da capital federal. O espaço tem 1.080 metros quadrados (de uma antiga sede da LBA-Legião Brasileira de Assistência) e foi cedido pela Afago, organização não-governamental (ONG). A execução está sendo coordenada pela Fundação Banco do Brasil, que conta com outros parceiros, num modelo de gestão colegiada: o próprio Banco do Brasil, o Ministério do Planejamento, a Cobra Computadores (doando instrumentos, ferramentas, mobiliário e know how) e a EFTI-Escola de Formação de Trabalhadores em Informática, instituição ligada ao sindicato dos trabalhadores de informática do Distrito Federal (Sindp-DF).

O CRC do Gama deve estar pronto até o final deste ano. A meta é ter 500 máquinas recondicionadas no primeiro semestre de operação, adianta Marcos Fadanelli Ramos, diretor de educação da Fundação Banco do Brasil (FBB). Depois desse período, espera-se que o CRC produza mil computadores por mês, destinados a projetos de inclusão social. As configurações dos micros ainda não estão definidas. “Depende do que vamos reunir de peças e máquinas”, diz ele que, contudo, assegura a preferência, no caso do software, por plataformas livres e abertas.

Assumpção,da SLTI, informa que já estão à disposição do programa do CRC 120 toneladas de peças, apreendidas pela Receita Federal. E que, dentro do conceito geral do projeto Computadores para a Inclusão, a decisão sobre o software vai acompanhar sempre o alinhamento com os ambientes não-proprietários. Ou seja, essa escolha não ficará a critério das entidades beneficiadas. Essas, por sua vez, serão selecionadas pelo conselho gestor do CI – formado por órgãos do governo, ONGs, empresas e outras entidades que estiverem apoiando seu desenvolvimento. É essa instância que vai decidir para onde vão os computadores e equipamentos recondicionados nos CRCs.

Capacitação profissional

Ao todo, do gerente ao estagiário, serão 74 pessoas trabalhando no CRC do Gama. Além de uma linha permanente de captação de equipamentos, reciclagem e montagem de micros, a unidade pretende ter um ciclo contínuo de treinamento e formação de pessoal. “A idéia é capacitar 12 jovens da comunidade a cada seis meses. Depois, eles vão fazer o curso técnico da EFTI e, finalmente, seguem para o mercado. Queremos consolidar, no Centro, núcleos de disseminação desses profissionais para o mercado de trabalho”, explica Fadanelli. Essa iniciativa tem o apoio também do Ministério da Educação (MEC).

No Rio, o CRC em construção ocupa um antigo depósito do Banco do Brasil, com 1.453 metros quadrados, no complexo da Maré. A coordenação é da Rede de Informações para o Terceiro Setor (RITS), em parceria com o BB, a Fundação Banco do Brasil, a Cobra, o Ministério do Planejamento e uma associação comunitária da Maré. A conclusão foi adiada para 2005, porque o espaço passa por um extensa reforma.

Embora em ritmo lento – as gestões para o projeto CI começaram no final de 2004 e o seu orçamento, este ano, foi de apenas R$ 600 mil –, o programa dá seus primeiros passos. Além dos CRCs do Gama e do Rio de Janeiro, em fase de implantação, Assumpção afirma que negociações também estão sendo feitas com indústrias de hardware, como Dell, HP e Itautec; e, para logística de distribuição, com os Correios, as Forças Armadas e a Confederação Nacional dos Transportes (CNT) – para estudar o uso do espaço de carga ociosa das transportadoras.

O modelo de operação do CRC vai exigir, ainda, uma logística complexa para manejo dos resíduos. A qualidade do equipamento recebido para doação determina o volume de dejetos que será gerado – entre duas a nove vezes superior ao de computadores recondicionáveis. O que significa a necessidade de um retirada periódica e planejada dos dejetos. “Há uma tendência mundial de regulamentar as responsabilidades corporativas por esses resíduos, e as empresas começam a entender, por isso, que os investimentos na reciclagem fazem sentido”, diz Assumpção.

Fora das ações de governo, a sociedade civil tem pelo menos dois exemplos que, na medida de suas ambições – bem diferentes entre si –, atingem seus objetivos no trabalho com máquinas descartadas: o movimento MetaReciclagem e a Campanha MegaAjuda, do CDI. O MetaReciclagem não é ligado a nenhum governo, não é uma empresa, não é nem uma ONG. Trata-se de um grupo de pessoas que trabalham juntas, oferecendo know how na área de reciclagem e recondicionamento de máquinas. Além de uma filosofia de ação que procura, do ponto de vista filosófico, a autonomia e o compartilhamento do conhecimento. E, no aspecto tecnológico, soluções mais adequadas a esses princípios. A saber: software livre, thin clients, máquinas e arquiteturas voltadas para a conexão à internet.

Autogestão na tecnologia

“É um projeto de tecnologia social, baseado na possiblidade de replicação. Temos a idéia de que dá para se fazer uma rede com equipamento reciclado. Questionamos a obsolecência forçada pelo mercado e qual a tecnologia que estamos usando”, explica Hernâni Dimantas, um dos articuladores do MetaReciclagem. Esse grupo é parceiro estratégico de vários projetos importantes de inclusão digital. Entre eles, o do telecentro Jarinu (SP), criado em parceria com a ONG sampa.org e mantido pela Associação de Mulheres de Jarinu, com computadores doados pelo Banco do Brasil e conexão com antena do Gesac (programa do Ministério das Comunicações). São 30 computadores em rede.

Junto com os integrantes das comunidades, o pessoal do MetaReciclagem desmancha as máquinas, pinta gabinetes e monitores, desmistifica a tecnologia, e refaz os equipamentos, numa oficina que pretende, além de conhecimento da infra- estrutura, uma forma de imersão – não só nos processos técnicos de manejo da máquina, mas nos princípios colaborativos do grupo. A internet tem papel estratégico, e, por isso, os servidores também. “São um gargalo da rede, sem dúvida”, admite Dimantas. “Porque preciso bootar (ligar) os terminais num computador mais potente. Mas aparecem coisas ótimas nos decartes”, conta.

Em geral, os servidores são negociados em parcerias com os doadores (Banco do Brasil, sampa.org, etc.), e as demais máquinas, construídas com partes e peças, para serem thin clients, conectados à rede. Essa é uma das muitas diferenças entre o programa MetaReciclagem e a Campanha MegaAjuda, do CDI, atualmente em sua quinta edição. As outras, diz Dimantas, é que o MetaReciclagem não faz capacitação visando o mercado de trabalho, mas a relação do usuário com a tecnologia; e só trabalha com plataformas livres. Mais leve, o software livre roda em máquinas menos potentes, o que permite o trabalho com equipamentos lowtech: computadores Pentium são muito bem-vindos, mas máquinas 486, com as quais se pode trabalhar em rede, escrever textos e trocar e-mails, também são aproveitadas. Essas máquinas existem em abundância, são passíveis de reutilização e, principalmente, podem ser abertas e modificadas. “As pessoas podem abrir, ver o que tem dentro, mexer. Aprendem mais do que ao lidar com as interfaces dos computadores”, destaca Dalton Martins, do MetaReciclagem.

O MetaReciclagem não quer ser uma ONG nem se institucionalizar. “Para que? Já há tantas ONGs por aí. Queremos espalhar o conhecimento, em esporos, para cada um ir fazendo o que acha interessante, onde surgir oportunidade”, justifica Dimantas. Os esporos do movimento, que conta com 15 integrantes mais ativos, já estão em Arraial da Ajuda, na Bahia, Minas Gerais, Distrito Federal, Porto Alegre. No momento, estão concluindo uma parceria com a Prefeitura de Campinas (SP), onde terão mais um galpão de reciclagem, além do que ocupam na Galeria Olido, no centro de São Paulo, sede de telecentro municipal e Cibernarium, projeto apoiado pela Comunidade Européia.

Na comunidade de Sacadura Cabral, uma favela urbanizada em Santo André (SP), um esporo do MetaReciclagem se prepara para mesclar um projeto social – um telecentro comunitário e cursos de capacitação em hardware e software – auto-sustentável com recursos obtidos pela vendade máquinas doadas e depois recicladas por pessoas da comunidade. É a versão popular do PC Conectado: computadores reciclados, com software livre, a preços de R$ 300,00 (Pentium 32 Mb, 1 Giga de disco, floppy disk) a R$ 500,00 (Pentium 64 Mb, 3 Giga de disco, CD Rom, floppy disc, placas de rede e de som), sempre com prestações de R$ 100,00 por mês.

O público-alvo dos computadores são jovens secundaristas, pequenas empresas e escritórios e domicílios de média e baixa renda. “Se vendermos cinco máquinas por mês, pagamos nosso custo fixo”, diz Antônio Bento Edson Dias Ferreira, um dos participantes da iniciativa. O plano de negócios foi feito com assessoria da Prefeitura de Santo André, e a capacitação em software livre e reciclagem, por militantes do MetaReciclagem. “Só vai dar errado se a gente desistir”, diz Antônio Marcos e Silva, da comunidade.

Doação para upgrade

A Campanha MegaAjuda, por sua vez, não aceita mais equipamentos 386 ou 486. Com a exigência de um padrão mínimo para as máquinas doadas ao CDI, aumentou a taxa de reutilização dos computadores recebidos, explica Rodrigo Alvarez, coordenador do CDI-SP. Ela foi de 30% na primeira campanha, em 2000, e hoje é de cerca de 51%. As máquinas saem com licenças do Windows, doadas pela Microsoft, e o software livre Kurumin, um sistema operacional aberto que roda a partir de um CD, sem ser instalado no disco rígido.

As entidades interessadas em receber doações inscrevem seus projetos no CDI, que decide como encaminhar as máquinas, de acordo com critérios como o IDH da área em que se encontra a entidade e o tipo de projeto proposto. No momento, diz Alvarez, o CDI está direcionando as doações para uma reimplantação nas suas escolas existentes, em vez da abertura de novas. “Queremos ampliar a atuação das 65 EICs de São Paulo, para que se tornem espaços de informática para a cidadania, não somente com aulas de informática, mas com uso da tecnologia para acesso livre à internet e por microempreendimentos”, explica.

A reciclagem dos computadores, no caso do CDI, se dá principalmente para que as máquinas sejam aproveitadas por comunidades que não teriam condições de comprá-las. “É uma questão de viabilidade financeira”, diz o coordenador. A Basf, por exemplo, acaba de doar 200 computadores, Pentium 3, que não rodam as novas versões de softwares adotadas pela empresa, mas que servem para as comunidades. “Não se trata de computadores para pobres, como dizem, quando nos querem criticar. São máquinas de qualidade”, garante Alvarez. De acordo com ele, não há nenhuma empresa estatal entre os dez maiores doadores do CDI, nem interesse da organização em participar dos Centros da SLTI. “Estamos alguns anos na frente deles. Fazemos isso desde 2000 e temos nossa própria infra-estrutura”, lembra Alvarez, referindo-se ao galpão de 600 metros quadrados, na Barra Funda, cedido pelo governo do Estado de São Paulo para uso do CDI.

www.bb.com.br • Banco do Brasil.
www.planejamento.gov.br • Ministério do Planejamento, com link para Secretaria de Tecnologia e Logística da Informação, responsável pelo projeto Computadores para a Inclusão.
www.fbb.com.br • Fundação do Banco do Brasil
www.efti.com.br

www.afago.org.br
www.cobra.com.br
www.metareciclagem.org.br
www.sampa.org.br
www.rits.org.br
www.cdi.org.br
www.megajuda.org.br
www.idcbrasil.com.br

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