Casa Brasil: um modelo para reduzir a exclusão
A licitação para os parceiros dos telecentros do Casa Brasil deve sair este mês. Um brutal corte reduziu de mil para 90 as unidades previstas para 2005. E o subsídio federal só dura dois anos. Mas pode ser o tempo necessário para mostrar ao país que o acesso à internet merece virar política pública. - Miriam Aquino*

Isso significa que o
parceiro que vencer a licitação para implantar uma unidade do Casa
Brasil, dentro de 24 meses, terá que conseguir manter o projeto sem
verba federal. Ou seja, terá que encontrar fonte de financiamento para,
a partir daí, pagar os monitores e custear a manutenção da unidade,
que será montada com os recursos do programa. “Foi a forma possível de
viabilizar o projeto com os recursos disponíveis”, justifica Sérgio
Amadeu, presidente do ITI, que integra o comitê gestor do programa.
90 unidades
Embora
os recursos sejam significativamente menores do que o previsto, os
coordenadores decidiram não chorar o leite derramado e passaram a
trabalhar com a realidade financeira existente. Em vez das mil unidades
que pretendiam ver imlantadas este ano, irão instalar 90 – e mais 50,
financiadas pela Petrobras –, convencidos de que o programa trará
impactos tão importantes para as comunidades atendidas, que eles
serão, por si só, os melhores argumentos para maior liberação de verbas
no próximo ano. Definidos os cortes (o que só ocorreu na última semana
de fevereiro), o Casa Brasil corre contra o tempo para se firmar.
Na
primeira quinzena de abril, estava previsto o lançamento da primeira
licitação, no valor de R$ 10, 8 milhões, conduzida pelo CNPq (Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), vinculado ao
Ministério da Ciência e Tecnologia. Essa licitação é a alma do
programa: é com essa verba que serão contratados os monitores – membros
da comunidade onde estarão instalados os Casa Brasil – e liberados os
recursos para a manutenção do projeto por um ano. A intenção é assinar
os contratos na primeira semana de julho, para que, até outubro, já
estejam em funcionamento.
Os parceiros estratégicos –
assim intitulados aqueles que serão escolhidos na licitação – podem ser
fundações de direito público ou privado, sem fins lucrativos;
organizações não-governamentais; oscips (entidades privadas de
interesse público); institutos de pesquisa e desenvolvimento (P&D),
empresas públicas de informática, governos estaduais e administrações
municipais. Estas últimas, acreditam os coordenadores do programa,
devem ser as principais interessadas na licitação. Um dos
pré-requisitos para a seleção é que essas entidades terão que dispor
(mesmo que sob a forma de aluguel) de espaço físico próprio – de pelo
menos 300 m2 – para abrigar o programa. As entidades escolhidas poderão
manter até cinco unidades.
Os critérios
Vários
serão os quesitos para a classificação dos parceiros, como capacidade
técnica e gerencial, mas o de maior peso será a melhor localização,
conforme os preceitos do programa. Os organizadores acreditam que
deverão ser criados consórcios aos quais se integrarão diferentes
perfis de participantes – como ONGS e empresas estaduais de informática
– para tocar o programa.

Instituto Água e Vida: Casa Brasil
em Guarulhos (SP).
Quanto à sustentabilidade, asseguram
fontes do governo, ela não impedirá que a gratuidade no acesso à
internet seja preservada. “Estaremos dando acesso à tecnologia da
informação para que uma parcela da população brasileira a use em seu
benefício. Para que ela se capacite à cidadania, como a elite
brasileira já faz”, comenta Amadeu, do ITI. Certamente, os parceiros
vão precisar de muita criatividade para manter o projeto gratuito, sem
os recursos orçamentários federais.
Coração do projeto
O
Casa Brasil, tal como idealizado, é um conjunto de módulos que tem, em
seu coração, o telecentro. Ou seja, um módulo onde as ferramentas de
Tecnologia de Informação, incluindo o acesso à internet, são utilizadas
não só para dar ao jovem as noções básicas de como usar o computador,
mas de como navegar na internet, como usar o conhecimento que está
disponível na rede e como aprender a compartilhá-lo com outros usuários
da rede.
O telecentro é, também, um espaço de
organização e de integração da comunidade com o projeto, na medida em
que os monitores são selecionados na própria comunidade, criando um elo
real entre o projeto e os moradores de seu entorno.
Além
do telecentro, da sala de leituras e de um mini-auditório, o Casa
Brasil poderá ter outros módulos, dependendo das definições do comitê
executivo para cada comunidade a ser atendida. Entre esses módulos
estão o laboratório de tecnologias digitais, o estúdio multimídia, com
equipamentos para a produção de conteúdo audiovisual, e uma rádio
comunitária. No espaço também estão previstas agências do Banco Postal
(dos Correios) e do Banco Popular (do Banco do Brasil). “A estrutura
modular permite que o programa se adeqüe a cada realidade local”,
explica Amadeu.
Durante a elaboração do programa, uma
corrente defendia que ele deveria incorporar as iniciativas de inclusão
digital já existentes, mantidas por entidades do Terceiro Setor,
prefeituras e mesmo por governos estaduais. “Seria uma soma de esforços
que nos daria escala e ajudaria as entidades com carência de recursos”,
afirmava Rodrigo Assumpção, coordenador do Comitê de Inclusão Digital
do Governo Eletrônico, da Casa Civil, e subsecretário de Logística e
Tecnologia da Informação (SLTI) do Ministério do Planejamento. Como
exemplo da soma de esforços, Assumpção citava o trabalho da ONG Moradia
e Cidadania, que tem quase duas dezenas de salas de informática sem
conexão à internet. “ Não seria o caso de avaliar se algumas dessas
salas não poderiam entrar no projeto, ganhar a conexão e se adaptar ao
conceito Casa Brasil?”, indagava ele. Essa tese foi parcialmente
contemplada na licitação, já que o perfil de participação é bastante
amplo. Mas os projetos terão que se adequar ao que é exigido no
programa.
Os telecentros vão adotar a arquitetura
descentralizada, que permite reduzir o custo de manutenção, limitada
então aos servidores. E em todo o projeto – mesmo nas salas de
multimídia – só vai rodar software livre. As verbas iniciais vão cobrir
também a conexão em banda larga, onde não for possível contar com a
conexão do Gesac (Governo Eletrônico- Sistema de Atendimento ao
Cidadão), provida pelo Ministério das Comunicações, que este ano vai
ampliar o número de pontos de presença para 4,4 mil.
Os
monitores a serem escolhidos, que serão contratados dentro da
comunidade, serão treinados pelo ITI, e cada Casa Brasil terá um
conselho gestor, formado pela comunidade. A outra parcela dos recursos
está destinada à aquisição dos computadores e mobiliário, cuja
licitação estava prevista para ser lançada também em abril.
Decreto presidencial
O
programa ficará vinculado à Casa Civil da Presidência da República,
cujo comitê gestor foi instituído por decreto do presidente Lula no
início de março. O comitê gestor ficará responsável por definir as
diretrizes gerais e será coordenado pela própria Casa Civil, composto
ainda por representantes da Secretaria de Comunicação e Gestão
Estratégica da Presidência da República (Secom); dos ministérios da
Educação, da Ciência e Tecnologia, das Comunicações, da Cultura e do
Planejamento; e do Serpro, da Caixa Econômica Federal, do Banco do
Brasil, Centrais Elétricas, dos Correios e da Petrobras. Haverá ainda
um comitê executivo, comandado pelo MCT, que ficará responsável pela
coordenação e implementação do programa.
Apesar de
tamanha representatividade, o Casa Brasil não irá aglutinar todas as
iniciativas do governo federal na área de inclusão. O programa do
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, voltado
para as pequenas e médias empresas, por exemplo, está também sendo
tocado a todo vapor, isoladamente.
Colaborou Lia Ribeiro Dias
Para pequenas e médias empresas
Já são 500 os telecentros de negócios implantados pelo MDIC em parcerias com governos, entidades e empresas.
Criar
telecentros auto-sustentáveis que não precisem de recursos
orçamentários de qualquer esfera do governo é um outro viés do programa
de inclusão digital do governo Lula, que está se ampliando rapidamente
e tem o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior
(MDIC) como seu articulador.
Os telecentros para as pequenas e médias empresas, cujos primeiros projetos foram iniciados ainda no governo passado – foram instalados 48 telecentros com recursos do Sebrae – passaram a ser 213 no final do ano passado e, agora, já somam mais de 500 em implantação em todo o país. A expansão dessa rede chegou a ser comemorada em solenidade oficial em Brasília na segunda quinzena de março, quando estiveram reunidos três ministros, o advogado geral da União e empresários que participam do programa. Na ocasião, o ministro Luiz Fernando Furlan anunciou que, até o final da gestão deste governo, quer contar com pelo menos um desses telecentros em cada município.
Os telecentros para as pequenas e médias empresas, cujos primeiros projetos foram iniciados ainda no governo passado – foram instalados 48 telecentros com recursos do Sebrae – passaram a ser 213 no final do ano passado e, agora, já somam mais de 500 em implantação em todo o país. A expansão dessa rede chegou a ser comemorada em solenidade oficial em Brasília na segunda quinzena de março, quando estiveram reunidos três ministros, o advogado geral da União e empresários que participam do programa. Na ocasião, o ministro Luiz Fernando Furlan anunciou que, até o final da gestão deste governo, quer contar com pelo menos um desses telecentros em cada município.
A fórmula para a expansão dessa rede é
simples: o governo federal doa os computadores que serão usados nas
pontas (equipamentos do Banco do Brasil e de diferentes ministérios
envolvidos no projeto), faz um chamamento público e as entidades são
escolhidas mediante a apresentação de um plano de negócios que comprove
a viabilidade econômica da iniciativa, incluindo os custos da aquisição
do servidor, dos móveis, da conexão, e da manutenção dos monitores. O
MDIC também se encarrega do treinamento dos monitores e, com o apoio do
Sebrae, criou o site www.telecentros.desenvolvimento.gov.br,
que dá dicas e informações úteis para os pequenos empresários
brasileiros. “As pequenas e médias empresas, que estão hoje excluídas
digitalmente, começam a aprender a fazer negócios pela internet”,
afirma José Rincon Ferreira, diretor de articulação tecnológica do
ministério.
Parcerias diversas
Os 213 primeiros
telecentros a se integrarem à rede do atual governo contaram com o
apoio da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (que
implantou 170 unidades), da Federação das Indústrias de Minas (com dez
telecentros), entidades de ensino e pesquisa de diferentes partes do
país (20 unidades), do Confea (que mantém seis unidades), da
Itautec-Philco, com seis unidades, e da Superintendência da Zona Franca
de Manaus -Suframa (um telecentro).
Na segunda etapa,
quando foi feito o chamamento público para a abertura de cem
telecentros com a doação de mil máquinas do Banco do Brasil, a demanda
foi maior do que a procura. Mais 370 máquinas tiveram que ser doadas
para contemplar todos os interessados. O resultado foi tão bom que o
MDIC está repetindo a dose neste mês de abril para a abertura de outros
150 telecentros, com máquinas doadas pelo Ministério do Desenvolvimento
Social. Além disso, a Telefônica integrou outros 21 telecentros à rede
e a Embratel colocou 20 novas unidades nas áreas de fronteira. “No
chamamento público, apareceu um Brasil diferente, pobre, que quer
participar da inclusão digital”, completou Rincon.
Ainda
neste semestre, outras 300 unidades serão abertas, com equipamentos do
BNDES, da Advocacia Geral da União-AGU e do Ministério do
Desenvolvimento. Só que essas unidades, explica o assessor José Avando
Alves, estarão voltadas para um público diferente: os soldados
brasileiros. Serão implantados 31 telecentros nas unidades vinculadas
ao Comando Militar do Planalto; 67 telecentros para os batalhões da
região Norte; 71 na região Nordeste; 68 na região Centro-Oeste; 56 na
região Sudeste; e 19 na região Sul. “Os soldados serão formados para
poderem ingressar futuramente no mercado de trabalho digital”, afirma
Alves.

Instituto Água e Vida: Casa Brasil em Guarulhos (SP).
Em
outra frente, o MDIC está procurando as 500 maiores empresas que atuam
no Brasil para se engajarem no processo de criação de telecentros
voltados para as pequenas e médias empresas brasileiras. “Nossas ações
estão voltadas para o empreendedorismo. Não concorremos com o Casa
Brasil”, explica Rincon.
* Colaborou Lia Ribeiro Dias








