Conexão Social

Lições da primeira fase
Avaliações do pré-piloto do programa UCA mostram as dificuldades e os ganhos da aprendizagem com uso de laptops educacionais Áurea Lopes
ARede nº61, agosto 2010 - O programa Um Computador por Aluno (UCA) chegou à sua escola? Chegou à escola onde seus filhos estudam? Se respondeu sim a uma dessas perguntas, você precisa conhecer as melhores práticas e as armadilhas a serem desarmadas para que esse programa do governo federal se torne, de fato, uma política educacional revolucionária. Porém, se respondeu não às perguntas do início, talvez você também tenha interesse em saber o que faz funcionar (e o que emperra) a proposta de colocar um laptop na mão de cada estudante das redes públicas de ensino brasileiras – uma estratégia que seria capaz de tirar o Brasil de posições vergonhosas como o 88º lugar (entre 128 países) do último ranking da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), divulgado este ano.
Implantado em uma fase chamada de pré-piloto, em 2007, em apenas cinco escolas do país, o UCA recebeu um apoio da maior importância em 2009, quando foi assinado um acordo de cooperação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Cerca de US$ 400 mil foram destinados para financiar um estudo sobre as primeiras aplicações da experiência brasileira. Sob a coordenação da Fundação Pensamento Digital, organização da sociedade civil sediada no Rio Grande do Sul, uma equipe de especialistas se empenhou em fazer avaliações detalhadas do impacto do projeto. Foram considerados aspectos como infraestrutura, recursos, capacitação, suporte, gestão, sustentabilidade e avaliação (ver página 28).
Todas essas informações são sínteses preciosas dos ganhos e das dificuldades implícitas na metodologia denominada 1 para 1 e apontam problemas e soluções de ordem conceitual e de ordem prática que vão ser de grande proveito para a segunda etapa do programa – já em andamento em mais de 300 escolas do país, agora na fase denominada piloto. Entre as conclusões mais significativas da avaliação, aparecem necessidades prementes como conexão de qualidade na escola (leia-se: banda larga), envolvimento direto dos gestores e do poder público local, mudanças na metodologia pedagógica, formação continuada de professores. Não foi possível, nesse período, estabelecer indicadores para avaliar o desempenho escolar. Mas foi unânime a percepção de que o uso dos laptops fez crescer a motivação, tanto de alunos, quanto de professores; melhorou a participação dos pais na escola; e aumentou a autonomia dos educandos.
Os resultados da avaliação financiada pelo BID foram apresentados a uma interessadíssima plateia de professores de redes públicas de ensino, durante o 11º Fórum Internacional de Software Livre, no final de julho, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul (ver reportagem sobre o FISL11 na página 34). Estudantes e educadores da Escola Estadual de Ensino Fundamental Luciana de Abreu, em Porto Alegre, explicaram, por exemplo, que houve uma mudança radical no horário escolar. “Uma aula de 40 minutos não dava para uma atividade com laptop. Passamos a ter aulas duplas de cada disciplina”, disse Tânia Mara de Castro Oliveira, coordenadora do UCA na escola. Os alunos levaram um vídeo feito por eles próprios e contaram, entre outras histórias, como os laptops foram utilizados para construir um foguete de água (real, não virtual), por meio do qual estudaram Física e Matemática, entre outras disciplinas. Experiências similares foram relatadas por representantes da Escola Municipal Ernâni Bruno (São Paulo) e do Colégio Estadual Dom Alano Marie du Noday (Tocantins).
A dedicação da professora Dinalva Inês Henn Vettorazzi, que dá aula de Matemática na 5ª série, emocionou os ouvintes. Assim que as máquinas chegaram à sua escola, ela procurou utilizar o laptop dentro do máximo do seu conhecimento, mas confessou que não tinha domínio suficiente da tecnologia para adotá-lo em tempo integral. Por isso, fez um mix de aulas com laptops e aulas convencionais. No entanto, como os alunos estavam bastante envolvidos no uso dos computadores móveis, em projetos interdisciplinares, ela liberou as turmas, em alguns de seus horários, de modo que eles pudessem participar das atividades em que o laptop era usado. “Foi um jeito que encontrei para que eles não perdessem a oportunidade de vivenciar um aprendizado envolvente, em que o grau de aproveitamento era maior do que o das aulas convencionais”, explicou. “De minha parte, comecei a assistir essas aulas de projetos, de outros professores, para ver, dentro do que eles estavam fazendo, como eu poderia inserir os meus conteúdos e aumentar a utilização dos computadores nas minhas aulas também”, acrescentou. De acordo com Elizabette Brizola Brito Prado, do Núcleo de Informática Aplicada à Educação(Nied), na Universidade de Campinas (Unicamp), responsável pelo projeto na escola de Palmas, a experiência de Tocantins deixou claro que, quando o laptop chega à sala de aula, o professor precisa saber muito bem onde está e onde quer chegar. Para ter condições de manter o foco, sem deixar que a navegação na internet ou a exploração da máquina desviem a atenção dos alunos do objeto de estudo. “Com isso, os professores passaram a organizar melhor o plano de aula e, mais do que isso, a explicitar para os alunos o que ia acontecer em sala”, explicou Elizabette. “Naturalmente, os meninos adquiriram mais autonomia. Iam caminhando por si, e se tornaram investigativos e coautores das atividades”, diz.
Quando se coloca o laptop na mão do estudante, muda tudo, ensina a professora: “Não há modelos, ninguém é capaz de dizer ´tem que fazer assim´. Está todo mundo aprendendo. Cada escola terá de construir seus processos, fazer suas descobertas. A única certeza é a de que é fundamental reconstruir a prática pedagógica, tirar os projetos político-pedagógicos das gavetas”.
www.uca.org.br
A força do gestor
Consenso entre aqueles que participaram do pré-piloto, a sensibilização dos gestores escolares é essencial para o sucesso do projeto. Estas são as recomendações de quem participou dessa primeira etapa, para diretores de escola e coordenadores pedagógicos que começam a implantar o programa:
• Ouvir as dificuldades e conquistas dos corpos discente e docente antes de propor alternativas de solução ou buscar parcerias que deem suporte ao projeto
• Ter consciência acerca de uma rigorosa organização de documentação dos dados da própria escola, com arquivos preenchidos e constantemente atualizados, de modo a facilitar o processo de avaliação
• Manter diálogo constante com as secretarias de Educação, bem como formar parcerias com a comunidade escolar
• Promover reorganizações internas, tanto para facilitar a quebra da rigidez do currículo como para superar as dificuldades físicas e técnicas das escolas
• Ter consciência da importância do planejamento da prática pedagógica com foco na interdisciplinaridade
• Ter consciência da necessidade de mobilizar os alunos para que eles participem ativamente dos próprios processos de aprendizagem
• Mapear os tempos de dedicação da equipe docente, bem como a clareza de suas atribuições, responsabilidades e funções
• Frequentar cursos de formação de gestores se estiverem disponíveis nas secretarias de Educação









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