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Raitequi - Revolução da remixagem



Revolução da remixagem

PLATAFORMA permitirá que qualquer cidadão recrie histórias e promova a fusão de cenas

Sergio Amadeu da Silveira


Encontrei Jimmy Wales, criador da Wikipedia, no programa RodaViva, da TV Cultura, no final do ano passado. Ao perguntar por que a Wikimedia não desenvolvia uma ferramenta para permitir a recombinação de vídeos, Jimmy respondeu prontamente que eles estavam preparando uma plataforma para remixar vídeos, ou seja, para fazer com as imagens em movimento o que já é feito com os textos. Sim, vem aí uma revolução da remixagem.

A plataforma online de recombinação e sampleamento de vídeos terá um impacto semelhante aos blogs. Antes dos templates, as pessoas precisavam conhecer o mínimo da linguagem html para escrever na web. A invenção dos blogs foi responsável pela explosão da produção de conteúdos na rede. O Kaltura, nome da plataforma de remixagem de vídeos, permitirá que qualquer cidadão recrie histórias, promova a fusão de cenas, torne-se um fanfic de primeira. Os educadores poderão preparar vídeos específicos com imagens que interessam a sua exposição em aula. A ferramenta terá mil e uma utilidades.

Kaltura (http://corp.kaltura.com) é uma plataforma para remixagens de vídeos com licenças livres , tais como a Creative Commons. É também desenvolvida como open source e permite criação, gestão, interação e produção colaborativa de vídeos.  Permite a edição de vídeos na própria web, o que representa um grande avanço para a criatividade e para a diversidade cultural.

A nova plataforma inclui um conjunto de widgets (componentes de interface gráfica com o usuário) facilmente personalizáveis, que podem integrar as aplicações de outras plataformas web de qualquer espécie. Também é possível criar novas interfaces e aplicações aproveitando o grande potencial de interoperabilidade da arquitetura aberta.

A comunidade Kaltura tomou a decisão de exigir que todos os usuários que utilizarem a plataforma tenham que licenciar suas criações em Creative Commons, CC BY-ShareAlike, que exigirá a manutenção a mesma licença para as obras feitas no Kaltura. A ideia é ter um grande repositório para as novas criações, formando uma verdadeira comunidade de partilha e remixagem. Um imenso território dos commons.

Segundo David Kaplan, da Agência Reuters, a Wikipedia espera lançar o projeto com centenas de milhares de arquivos de vídeos. Para isso, já conta com três parceiros: o Internet Archive, que armazena cerca de 200 mil vídeos, incluindo documentários e vídeoclipes; a Wikimedia Commons, que detém 4 milhões de arquivos multimídia e o Metavid, que arquiva os discursos e audiências do Congresso estadunidense.

Se 1983 foi o ano do software livre, a partir da iniciativa de Richard Stallman, 2009 será o ano do vídeo livre, acreditam muitos dos participantes da última Open Video Conference. Sem dúvida, a paisagem do áudio-visual será bastante alterada com o lançamento da plataforma online de vídeoremix. Para ter uma remota ideia do que poderemos encontrar é interessante observar o trabalho de um músico israelense chamado Kutiman.

A blogueira Lalau descreveu em seu post o brilhante trabalho de remixagem de Kutiman (http://lalai.net/2009/06/26/kutiman-mixes-youtube/). O músico juntou centenas de “pedacinhos de vídeos do Youtube, jogou no liquidificador e transformou em música de primeiríssima. Os vídeos são aleatórios, ele usou sem pedir licença, e sugere que você dê uma olhada nos créditos para ver se você não aparece sem querer em algum deles. O projeto foi honestamente entitulado Thru You.” O slogan do Thru You é “What you see is what you hear”, ou seja, o que você vê é o que você ouve.

Atualmente, é preciso muitas habilidades para produzir uma remixagem como a que encontramos no Thru You. Vale a pena navegar pelos remixes de Kutiman no endereço http://thru-you.com/ e ver a sofisticação dos novos arranjos. Com uma plataforma aberta e amigável de recombinações online certamente haverá uma explosão de obras de grande criatividade. O fenômeno do machinima -- mini-vídeos gravados no cenário de um game -- ocorreu a partir do momento que a empresa que desenvolvia o game Dom lançou um recurso que permitia o jogador gravar sua ação para visualização posterior. Logo, os gamers passaram a utilizar essa aplicação para filmar pequenas histórias dentro do game, usando seus personagens e avatares.

O filósofo Pierre Lévy escreveu no livro Cibercultura que “a obra virtual é aberta por construção”, daí a importância da remixagem para a criatividade. Lévy continua: “participação ativa dos intérpretes, criação coletiva, obra-acontecimento, obra-processo, interconexão e mistura dos limites, obra emergente -- como uma Afrodite virtual -- de um oceano de signos digitais, todas essas características convergem em direção ao declínio (mas não ao desaparecimento puro e simples) das duas figuras que garantiram, até o momento, a integridade, a substancialidade e a totalização possível das obras: o autor e a gravação”. Pierre Lévy escreveu isto em 1997, mas a tendência recombinante dos segmentos expansivos da rede já era evidente.




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