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A ocupação de latifúndios digitais



Com telecentros nos assentamentos e escolas, MST promove inclusão digital. Tatiana Merlino

ARede nº60, junho 2010 -Reconhecido como uma das principais organizações sociais do mundo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não atua exclusivamente na luta pela reforma agrária. Aposta também na democratização de educação, da comunicação e da informação. E um dos meios que a organização encontrou para atingir esses objetivos foi promover a inclusão digital dos sem-terra. O debate sobre o tema teve início no final dos anos 1990, mas foi em 2003 que o projeto tomou corpo, quando o movimento recebeu cerca de 2 mil computadores por meio de programas dos governos federal e estaduais, via Banco do Brasil.

Hoje, são cerca de 40 telecentros, distribuídos em assentamentos, cooperativas, centros de formação e escolas do movimento. Nos locais onde não há telefone, os telecentros funcionam com antenas Gesac. “A inclusão digital é vital no processo de democratização da comunicação e fundamental para a coordenação interna do MST”, afirma Evelaine Martines, do coletivo nacional de cultura da organização.

Durante o processo de implantação do projeto de inclusão digital nos assentamentos, “escolhe-se uma pessoa de referência, que vira um multiplicador e que pode vir a ser um monitor”, explica Miguel Stedile, do setor nacional de comunicação do MST. Essa pessoa recebe capacitação em gerenciamento de software e manutenção de hardware.

Como os centros começaram a ser implantados em 2003, as crianças dos assentamentos têm acesso à ferramenta desde cedo. Embora defenda a importância da inclusão digital dos camponeses, Evelaine pondera: “Não queremos que eles assumam o mesmo modelo de dependência do computador que existe na cidade”.

Para Stedile, um dos méritos da existência dos telecentros do MST é a circulação de informação. “Estamos falando de assentamentos localizados a 60, 80, 120 quilômetros dos centros urbanos”, diz ele. “A internet viabiliza, por exemplo, que o sem-terra do Pará saiba o que está acontecendo com o sem-terra do Rio Grande do Sul”, explica.

Os usuários dos telecentros do MST são, em sua maioria, jovens. “Há uma certa cautela meio natural dos trabalhadores mais velhos em relação a esse tipo de tecnologia”, diz Stedile. Para os jovens assentados, os ganhos da inclusão digital são evidentes, acredita o coordenador do MST: “Há uma ampliação da visão de mundo, principalmente nessas comunidades isoladas, ligadas a centros urbanos por estrada de chão. Por meio da internet, o assentado passa a ter contato com a realidade de outros jovens”.

A consolidação dos cursos de formação e processos educacionais promovidos pelo movimento é uma das características mais importantes dos espaços de informática. Como há cursos que são ministrados em módulos ao longo de um ano – fazendo com que, por exemplo, o aluno saia de seu estado por dois meses, regresse para casa e, meses depois, volte à cidade onde ocorre o curso –, os telecentros ajudam no contato com os professores e companheiros, e possibilitam pesquisa, repasse de informações e intercâmbio de ideias. “Eles ajudam a manter o elo e fortalecer as relações”, conta Evelaine.

Tais espaços também permitem buscar outras formas de comercialização do que se produz nas cooperativas, assim como aprofundar o conhecimento de técnicas de agroecologia. Um dos assentamentos que teve sua produção impulsionada pela rede de comunicação foi o Viamão, localizado na zona metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. “Eles são grandes produtores de arroz orgânico e o telecentro de lá ajudou a comercializar o grão agro-ecológico”, diz Evelaine.

Outro telecentro do MST bem-sucedido é o da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), localizada em Guararema, interior de São Paulo. Inaugurado em 2005, junto com a escola, ele está integrado ao espaço pedagógico da ENFF, onde há teatro e biblioteca. “É difícil precisar quantas pessoas já foram beneficiadas por ele, porque, além do público que passa por ali em cursos, há a comunidade do município de Guararema que também usufrui dele”, relata Stedile.

Pela escola, passam estudantes e militantes de movimentos sociais do Brasil, da América Latina e da África, que ali permanecem durante alguns meses, fazendo cursos. “O telecentro é importante para fazer contato com o país de origem e circular informações entre eles”, conta o dirigente do MST. Segundo Stedile, dependendo do estado e do assentamento em que é instalado, o telecentro assume uma função mais específica, direcionando-se para uma determinada área de atuação do movimento. Um telecentro situado próximo a uma cooperativa agrícola, por exemplo, serve também para potencializar a comercialização. Se está localizado perto de uma rádio comunitária, tende a cumprir o papel de ajudar no processo de comunicação.

Em alguns locais, os telecentros estão ligados aos Pontos de Cultura e às rádios comunitárias. É nesses espaços de convergência de mídias, no entanto, que aparecem algumas das deficiências. Como as máquinas enviadas aos assentamentos são de segunda linha, elas começam a dar problemas técnicos e, muitas vezes, não há reposição de peças. Além disso, como os computadores são defasados, pode haver dificuldade para trabalhar com o material de edição de áudio e vídeo produzido no Ponto de Cultura.

“Acho que o principal problema é a ideia de que, para nossos telecentros, as máquinas têm que ser usadas”, queixa-se Stedile. “Isso prejudica a manutenção e o funcionamento e, além disso, desde a implantação dos centros, não houve reposição dessas máquinas”, acrescenta. Por conta desses problemas, há casos de telecentros que foram fechados para manutenção e demoraram muito a reabrir.

software livre
Outro desafio dos telecentros rurais é a migração do software proprietário para o livre. “Como a alfabetização digital se dá, muitas vezes, via lan house, durante essa transição há muita dificuldade de adaptação”, afirma Stedile. Entre as reivindicações do MST ao governo federal, está a ampliação do número de telecentros instalados nos assentamentos. Temos é que pensar na possibilidade de ampliar o acesso”, diz o dirigente do MST. Recentemente, o MST foi contemplado com 30 telecentros do Projeto Territórios Digitais, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

Foto Divulgação
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