Opinião - Desafios da tecnologia educativa
Desafios da tecnologia educativaARede nº51,setembro 2009 - A rapidez com que as tecnologias da informação e da comunicação se disseminaram pelo mundo desenvolvido gerou a preocupação de evitar o aparecimento de uma nova brecha, desta vez de caráter digital. Com essa preocupação, as atenções se voltam às crianças, sobre as quais recai a tarefa de construir a sociedade do futuro.
Em maio, o governo da Espanha tornou pública sua intenção de dar um computador portátil a todos os alunos da 5ª série primária (12 anos), o que representa aproximadamente 500 mil crianças. A iniciativa, anunciada pelo presidente socialista Rodríguez Zapatero, recebeu críticas, uma vez que, para executá-la, o governo espanhol vai firmar acordos com HP, Micrososft, El Corte Inglés e o Grupo Santillana – enquanto alguns governos regionais levam anos implantando programas similares e bem-sucedidos baseados em software livre, como é o caso de Extremadura, Andalucia, Cataluña, Madri, Valencia ou Canarias, inspirando-se no programa One Laptop Per Child, promovido por Nicholas Negroponte.
De acordo com o Informe de Tecnologia Educativa 2008, editado pela Confederação Espanhola de Centro de Ensino, cada centro educativo tem cerca de 54 computadores. Isso representa, em média, dez alunos por máquina e quatro professores por máquina. Os educadores estão preocupados com o fato de seus alunos disporem de uma tecnologia que para eles, docentes, não é de tão fácil assimilação. Essa diferença de familiaridade com a tecnologia pode colocar as crianças em uma posição de vantagem, que dificulte a relação educativa e que possa minar a autoridade moral dos educadores.
O autêntico propósito educativo está em outorgar à tecnologia um caráter instrumental que seja transversal a todas as matérias. Isso dificilmente pode acontecer se a informática é isolada, como uma matéria independente, separada do restante dos conteúdos curriculares. Obter essa conquista requer começar a levar em conta o professorado. Os professores, sim, em muitos casos precisam de uma formação de caráter técnico que lhes permita entrar no mundo da tecnologia. Mas em seguida é necessário fazer um segundo esforço, muito mais profundo, para adaptar os métodos didáticos à chegada dessas novas ferramentas, de modo que se destaque o conteúdo e se assegure a finalidade do processo educativo.
A tecnologia não deve ser a protagonista. Os próprios alunos têm de assumir esse papel principal, e utilizar, para seu desenvolvimento pessoal, quantas ferramentas estejam a seu alcance, incluídas as tecnológicas. Essa realidade digital que nos rodeia a todos, mas de modo particular às crianças, está mudando o modo de nos comunicarmos, de nos relacionarmos, de aprender. Por isso é sem dúvida importante que a tecnologia esteja presente no contexto educativo, mas assegurando que as crianças possam adquirir não apenas competências técnicas para usar as tecnologias senão, e sobretudo, um conjunto de pautas que lhes permitam fazer frente a uma realidade digital de modo seguro e responsável.
Charo Sádaba - Diretora do Departamento de Empresa Informativa da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra (Espanha). Diretora de Pesquisa do Fórum Gerações Interativas e co-autora do livro A Geração Interativa na Ibero-América, crianças e adolescentes diante das telas.



