Cultura - Conte-me de você
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Projeto Olhares Cruzados conecta crianças brasileiras com latinoamericanas e africanas para que compartilhem suas histórias Mariana Lacerda
O intercâmbio entre crianças latinoamericanas, africanas e brasileiras é o cerne do projeto Olhares Cruzados, criado em 2004 pela arquiteta Dirce Carrion, à frente da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Imagem da Vida, sediada em São Paulo (SP). A iniciativa leva em consideração que essas populações têm histórias passadas e presentes que se encontram, se misturam e se traduzem em traços próximos, como povos “irmãos”.
E a rede não para por aí. Vai crescendo, quando surge uma nova comunidade a ser trabalhada – sempre uma localidade que preserva traços da cultura local e que esteja enfrentando uma situação de exclusão social. Dirce tem uma equipe: Aline Magna, Nilton Pereira e o fotógrafo José Bassit. O grupo visita a comunidade, faz contato com escolas, associações e estabelece interlocutores locais. Documentam tudo o que encontram. E aí começam a realizar oficinas com a garotada. Além de participar da produção de fotografias e desenhos, “porque é a forma mais direta de mostrar o cotidiano vivenciado”, os alunos são estimulados a recolher e trazer para o grupo objetos que simbolizem o lugar onde vivem. O material selecionado, resultado do “olhar das crianças, que é muito livre, descomprometido, verdadeiro, real”, é então levado para crianças de outro país.
Contar para se ouvir
Com isso, eles valorizam a cultura da qual fazem parte. “Aumenta a auto-estima das crianças e dos adolescentes que participam dos encontros, assim como das comunidades a que pertencem”, diz Dirce. Como aconteceu uma vez, no final de 2005. O Olhares Cruzados promoveu o diálogo entre crianças brasileiras e do Haiti, país escolhido pela sua herança africana comum ao Brasil e por sua história de luta (a independência foi deflagrada por escravos). Aqui, as oficinas do projeto foram realizadas no Quilombo do Frechal, no Maranhão, uma reserva extrativista onde vivem 180 famílias. Do lado de lá, foi escolhida a favela Cité Soleil, na cidade de Port ao Prince — onde as atividades tiveram de ser feitas rapidamente e acompanhadas pela força de paz da ONU, pois havia, na região, uma ação guerrilheira que apoiava o então presidente exilado Jean Bertrand Aristide.
Todo o material produzido nas oficinas do Olhares Cruzados é editado em livros, distribuídos às comunidades envolvidas. “O projeto gera, por fim, um objeto que coloca as crianças na posição de protagonistas, de serem elas as responsáveis por fazer e contar as histórias de suas comunidades. Quando podemos agir assim, somos mais respeitados”, conta Dirce. Já são seis livros editados e mais um em produção. No Brasil, Olhares Cruzados conta com os apoios federais das Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos e do Ministério das Relações Exteriores.
www.olharescruzados.org.br



