Demoscene, demoparties e a música na computação
Especialistas juntam as rotinas e os algoritmos de determinados programas computacionais com música eletrônica. É uma festa!
Sérgio Amadeu da Silveira

A cibercultura reunificou dois campos que haviam sido completamente afastados pelo processo de divisão do trabalho e especialização capitalistas: a ciência e as artes. A digitalização intensiva dos últimos trinta anos permitiu que alguns grupos sociais que estavam à margem do sistema ganhassem força e iniciassem uma série de experiências de tecno-arte e de fusão da música com a programação computacional. O próprio espírito do hipertexto, das ligações e pontes entre trabalhos diferentes, incentivou as recombinações e fortaleceu a criação de plataformas colaborativas e de remixagens variadas.
Um dos exemplos mais característicos desse movimento é uma subcultura que reúne a computação às artes digitais chamada demoscene. O objetivo da demoscene é a produção de sons e imagens a partir da programação computacional gráfica. A enciclopédia colaborativa Wikipedia esclarece que um demo visa “demonstrar capacidade e destreza técnicas em habilidades de programação, artes gráficas e música”. Resumidamente, podemos dizer que os demos são programas executáveis produzidos em tempo real, reunindo programação e música. Os demos que são similares aos vídeos de música e aos pequenos filmes de animações. Em geral, são desenvolvidos em Demoparties, eventos que reúnem diversos demomakers e demogroups que competem para criar o melhor demo.
No universo cracker, os demos eram inseridos após a proteção anti-cópia ser removida dos programas de computador. Evoluíram de telas de crack (que demonstram o feito no próprio programa violado) com um simples texto para telas com efeitos combinados de sons e animações visuais. Grupos de crackers que assinavam as mensagens introdutórias às suas façanhas passaram a chamá-las de “letter” e depois de “demo”. Provavelmente essa é a origem do termo.
Segundo a associação alemã Digitale Kultur e.V. (cultura Digital), que busca apoiar as atividades das demosecenes na Alemanha, demoparties têm ocorrido principalmente na Europa, em países como Finlândia, Holanda, França, Suécia e Alemanha. Já ocorreram algumas demoparties nos Estados Unidos, em Berkeley, San Diego e também no Canadá. Uma demoparty acontece, em média, durante três dias, em geral, nos finais de semana, em locais amplos como ginásios e auditórios. Os participantes trazem seus computadores e aparelhos de som. Sem parar um único minuto, a música Loud vibra em todo o ambiente, enquanto as equipes de demomakers programam seus demos. Os trabalhos são exibidos, em geral à noite, em um telão, a partir de um projetor e de gigantescas caixas de som.
As demoparties surgiram nos anos de 1980, antes da web ser criada e se expandir pelo planeta. As copyparties, eventos de compartilhamento de softwares e games, estão na origem das demoparties. Em algumas dessas reuniões, programadores, hackers demonstravam seu talento transformando as rotinas e algoritmos de determinados programas computacionais em música eletrônica. O grande lance era tirar musicas e efeitos visuais de computadores da família Apple II, Commodore 64, Atari, Amiga e PCs, entre outros. Ainda segundo a Wikipedia, “os grupos neerlandeses 1001 Crew e The Judges, ambos para Commodore 64, são mencionados como os primeiros demogroups. Competindo entre si durante o ano de 1986, criaram demos com músicas e gráficos originais, se aproveitando das capacidades técnicas do computador. Simultaneamente, outros grupos e indivíduos como Antony Crowther (Ratt) passaram a distribuir suas obras por redes como a Compunet do Reino Unido”. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Demoscene)
Existem vários repositórios de demos. Alguns deles permitem downloads de trabalhos considerados os melhores de uma série de demoparties. Na scene.org (www.scene.org/tips.php) é possível acessar inúmeros trabalhos que permitem observar como foi a evolução da demoscene desde 1995. Os mais recentes podem ser baixados pela rede. A Association for Digital Arts Development (Adan) é uma associação européia, sem fins lucrativos, que mantém um stream de demos para todos os criadores de demoscene chamado de Demoscene TV (www.demoscene.tv). Outra importante mídia da comunidade demoscene foi a Rádio Nectarine (http://nectarine.ojuice.net/), que existiu até setembro de 2008, quando foi vítima de ataque devastador nos servidores que a hospedavam. Era uma verdadeira estação demoscene. Nectarine reproduzia músicas demo obtidas de todos os trackers da comunidade e também recebia pedidos de músicas de seus ouvintes.
A comunidade de demoscene é extremamente criativa. Sua característica mais marcante é a capacidade de unir a complexidade técnica das ciências exatas com a sensibilidade artística e o bom gosto estético. Segundo a Demoscene TV, o “espírito de equipe, a mente aberta, a criatividade e o talento permanecem sendo as palavras-chave para definir a atividade demoscene”. Vincent Scheib escreveu que os demos “estão prestes a fazer de um computador a coisa mais legal que já se tenha visto, pois eles estão prestes a portar a grande música, a grande arte e a grande programação”. Esta é a essência da cibercultura que hoje tem na subcultura demoscene uma das suas mais importantes manifestações.
Para ir mais longe: um dos textos mais claros e descritivos da história e das tendências atuais da demoscene é “Introduction to the Demoscene — hugi” (somente em inglês) que pode ser acessado no site www.scheib.net/play/demos/what/hugi/index.html.
Sérgio Amadeu é sociólogo, considerado um dos maiores defensores e divulgadores do software livre e da inclusão digital no Brasil. Foi precursor dos telecentros na América Latina e presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação.



