Jr. tem 38 anos trabalha na estação digital do bairro São Pedro, na periferia de Teresina. Ele conhece os bairros pobres da cidade, porque nasceu em um deles. Aqui no São Pedro, e nos demais bairros, Jr. conhece os rapazes que se organizam em gangues para brigar com as gangues do bairro vizinho. Para se afirmar, para passar o tempo, em um lugar sem alternativas de educação, lazer e trabalho. Ele conhece os moradores de rua do centro da cidade, pessoas que se abrigam nos fundos de uma igreja e já formaram famílias na rua. E os moradores do distante conjunto Mário Covas, muito pobres, que às vezes voltam às ruas do Centro para conseguir o que comer. Conhece muitos ex-detentos do Centro de Educação de Menores, a Febem do Piauí, porque dirigiu uma de suas unidades.
Conhece porque parte de seu trabalho de educador de rua é convencer as pessoas de que podem mudar o rumo das suas vidas. E reunir meios para proporcionar isso. A estação digital de Teresina oferece bem mais do que aulas de informática, alternativas de geração de renda (costura e confecção de sacolas de papel), aulas de inglês. É uma espécie de território livre de violência, em um contexto assolado por ela. Há alguns anos, para tentar reduzir as mortes causadas pelas brigas entre as gangues, o MP3 organizou um passeio para a praia, em Parnaíba, com os cabeças de várias delas. “Você não vai, Luis Carlos, vai morrer”, disse Rosângela, a irmã de um deles, o líder da gangue do bairro do Paraíso. Para participar da viagem, a condição era não haver brigas. Como estavam loucos para chegar à praia, os inimigos não brigaram. Pela primeira vez se encararam como iguais. Ninguém virou amigo. Mas também ninguém morreu.
Jr. tem um dia-a-dia agitado, porque resolve mil problemas de uma só vez – arrumar filme para passar no Cine Periferia, pagar as contas das reformas na estação, receber visitantes e pessoas interessadas em realizar atividades ali, conversar com os meninos que, na noite anterior, tentaram invadir a quadra, se reunir com empresários que têm parceria com a estação. Muita coisa. Mas sua principal atividade é a conversa: a cada rapaz ou moça que conhece na rua, ele fala sobre aprender, tentar viver melhor, deixar de guerrear, construir sua auto-estima. Jr. sobreviveu à morar e trabalhar na rua, e se educou com a ajuda de amigos. Agora é um homem com uma missão: quer ajudar os outros também. Veja matéria sobre o MP3 na edição número 50 da revista ARede.



