Wikileaks: Microsoft recorreu à diplomacia americana para barrar a adoção do ODF no Brasil.
06/09/2011Entre 2007 e 2008 houve uma disputa, no Brasil, em torno de qual formato de documentos a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) iria adotar como norma para os documentos eletrônicos no país. De um lado da disputa estava o padrão ODF (Open Document Format), um formato aberto e público. Do outro, o padrão OXML, proposto pela Microsoft para garantir a compatibilidade com os formatos anteriores usados por seus programas, como o Word e o Excel.
A ABNT escolheu o ODF e a versão final da tradução da norma ISO/IEC 26300 foi aprovada em 2008. Esta aprovação era o último passo para a adoção do ODF como Norma Brasileira. Antes disso, porém houve uma enorme briga de bastidores na qual a Microsoft tentou fazer prevalecer seu padrão. Um dos 251 mil despachos das embaixadas americanas em todo o mundo, vazados pelo Wikileaks, mostra como o presidente da Microsoft, Michel Levy, recorreu ao embaixador americano no Brasil e argumentou em favor de sua posição, acusando o governo brasileiro de ser "anti-americano" e contrário à propriedade intelectual e os royalties.
O ODF foi adotado pela ABNT e foi criado o Protocolo Brasília, pelo qual empresas e organizações assumem o compromisso de adotar o padrão ODF. Leis sobre o assunto aprovadas em alguns estados e um projeto para adoção em todo o país agora tramita no Congresso Nacional. "O ODF só cresce no Brasil, e por isso mesmo fico feliz em ver que mesmo apelando como eles apelaram, fracassaram miseravelmente na tentativa de barrar este avanço", conta Jomar Silva, o Homembit, engenheiro, desenvolvedor de padrões abertos e ativista do software livre. Hoje a Microsoft participa do comitê que desenvolve o padrão, suporta o ODF - ainda de forma bastante limitada - no Microsoft Office e tem trabalhado no desenvolvimento de padrões abertos. "A Microsoft precisou apelar até para o governo norteamericano para frear o ODF e avançar com o OpenXML. A pergunta que fica é: em quantos outros países eles fizeram o mesmo, e quais governos sucumbiram a esta pressão?", comenta Jomar.
Vale a pena ler o despacho, para ver como a empresa recorreu à diplomacia para defender seus interesses. Ele é atual porque argumentos como "pirataria" e "desrespeito à propriedade intelectual" ainda são usados, por empresas que dependem de propriedade intelectual, para impedir a adoção de padrões abertos e de leis de direito autoral mais flexíveis. E para defender a aprovação de leis de vigilância na internet. A matéria que revelou o despacho de 2007 foi publicada no site da organização não governamental Knowledge Ecology International (KEI). Abaixo, uma tradução livre do texto. Vale observar que o XML citado no documento, de forma incorreta, é o OpenXML (OXML).
Em 21 de dezembro de 2007, o cônsul geral dos Estados Unidos em São Paulo, Thomas White, escreveu um despacho com o seguinte título: Microsoft vê ataques do governo contra direitos de propriedade intelectual (ou intellectual property rights, na expressão em inglês, IPR). O despacho foi classificado como "Confidencial" pelo chefe de assuntos políticos e econômicos do consulado, James Story.
No despacho o cônsul relata uma reunião de 20 de dezembro, em São Paulo, entre o embaixador dos EUA no Brasil, Clifford Sobel, e o presidente da Microsoft Brasil, Michel Levy. O tema da reunião foram as preocupações da Microsoft pelo fato de o Brasil estar:
"pressionando outros países para que adotem o padrão ODF (Open Document Format) em vez do XML no encontro realizado em março pela International Standards Organization (ISO) em Genebra." [A ABNT havia votado contra a adoção do padrão da Microsoft em agosto de 2007, na reunião da ISO]
Levy afirmou que tinha em mãos cartas não assinadas do Itamaraty a outros governos pedindo sua colaboração para apoiar o ODF, um padrão aberto, como padrão internacional. Mesmo que fosse verdade, isso não seria surpreendente porque havia, na época, um apoio amplo entre governos, empresas de software que não fossem a Microsoft, organizações de defesa de consumidores e defensores do software livre para pressionar pela adoção do ODF como o padrão aberto para formatos de arquivos. [Isso aconteceu porque essas organizações são contrárias à adoção de formatos proprietários para documentos eletrônicos].
O despacho afirma que a Microsoft esperava, do embaixador, uma consultoria confidencial sobre o tema, não a defesa das posições da empresa. Esse tipo de aconselhamento estava disponível: "O embaixador Sobel ofereceu, em vários assuntos confidenciais, conselhos sobre que tipo de abordagem a Microsoft poderia fazer para angariar apoio a padrões que admitissem tanto o ODF quanto o XML."
Michel Levy expressa sua preocupação em relação à Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil:
"Levy acredita que esse tema está sendo tratado de maneira ideológica e é uma manifestação de anti-americanismo dentro do Itamaraty. Ele citou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, assim como seu assessor de alto nível, Cezar Alvarez, como os arquitetos de uma estratégia anti-propriedade intelectual e anti-royalties dentro do governo. De acordo com Levy, esses auxiliares convenceram o presidente Lula de que não havia diferença entre o ODF e o padrão proprietário XML. Sua principal preocupação era que o Poder Executivo decidisse, por meio da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), adotar o ODF como padrão para os documentos do governo brasileiro sem consultar o Congresso Nacional, onde a Microsoft teria ao menos a chance de explicar as diferenças entre os sistemas de software. Levy usou como exemplo o fato de que todos os designs da Embraer são criados em XML e que o padrão ODF usado na época não daria conta de fazer a mesma coisa. Se o ODF for o único padrão, argumentava Levy, haveria consequências econômicas para o Brasil.
O despacho conclui com a observação de que "a preocupação da Microsoft de que o governo brasileiro esteja tentando adotar um padrão que não permita o uso de software proprietário merece nossa atenção".
O texto integral do despacho está neste site, em inglês.



Comentários
A prova disso, é que ninguém vem com o discurso, eu uso rWindows, pois ele é rápido, estável e seguro. Sempre usam aquilo, pois é “necessário para algumas rodovias”…..
E é basicamente isso que não gosto da M$. Nada contra o software proprietário, mas a política de algumas empresas são tristes…..
Mas fico triste, pelo povo burro brasileiro não querer nem ao menos ver o LibreOffice ou o OO ou qualquer outro editor livre nas suas máquinas...
.
O que vale é o piratão --'
.
Quando estava estudando e as pessoas vinham com trabalhos em ODF, os professores ficavam P... por causa que não abria no seu MSOffice T_T'
.
Espero que isso mude um dia.
E chuuuuuuupa MS ;D
Muitas pessoas acham que a NBR/IEC 26300 dita quais são as extensões que
devem ser adotadas pelos orgãos públicos, empresas, usuários, etc.
A NBR/IEC 26300 apenas CITA o padrão de desenvolvimento de aplicativos
que queiram utilizar o ODF. Ou seja, se você for construir um software
que cria/edita/salva arquivos ODF (v 1.0), o padrão a ser seguido consta
na NBR/IEC 26300.
Assim como existe a ISO/IEC 26300 (ODF), também existe a ISO/IEC 29500
(OpenXML = Microsoft).
E mais: NÃO EXISTE nenhum software no mundo que está adotando a
NBR/ISO/IEC 26300. Essa "norma" é referente ao ODF 1.0, enquanto que a
totalidade dos softwares (OpenOffice, LibreOffice, KOffice, Google Docs,
IBM Lotus Symphony, etc) utilizam o padrão ODF 1.2
Resumindo: A norma já nasceu obsoleta, NUNCA funcionou, e a quase
totalidade das pessoas fizeram escândalo, brigaram e mandaram e-mails
sobre algo que NUNCA entenderam (ou achavam que estavam entendendo).
Prá começo de conversa, quem não entendeu nada aqui é você ! Se você não percebeu, o texto não questiona méritos técnicos do padrão A ou B, mas alerta para um absurdo cometido pela Microsoft durante o processo de avaliação do OpenXML na ABNT. Se o ocorrido fosse nos EUA, os envolvidos estariam neste momento NA CADEIA.
Já que você resolveu escrever bobagem sobre o ODF, começo então te convidando (e recomendando) para que use o seu tempo de forma mais útil estudando o padrão ao invés de ficar trollando por aí na Internet. Sou um dos desenvolvedores do ODF e fui um dos brasileiros que leu as mais de 6.000 páginas do OpenXML, além de participar dos comitês da ABNT e da ISO que tratam de documentos eletrônicos. Você devia ter vergonha em sair por aí escrevendo bobagem sem ao menos conhecer os padrões, obrigação que é sua como Engenheiro ao emitir parecer sobre qualquer assunto. Profissionais como você é que levaram a engenharia no Brasil ao ponto onde ela está hoje. Se não quer estudar um assunto de forma aprofundada, é sua obrigação profissional SE CALAR sobre ele !
Para esclarecer aos leitores os absurdos escritos por este irresponsável:
1. A NBR/ISO 26.300 é a norma que descreve um schema XML para a o armazenamento de documentos de escriório, e descreve ainda o seu encapsulamento. Em resumo, a NBR/ISO 26.300 é a norma que DEFINE o padrão OpenDocument Format no Brasil, e ela é baseada na versão 1.0 do padrão, compatível com todas as versões subsequentes.
2. A norma ISO que originou a nossa norma Brasileira já foi atualizada por um Amendment que a compatibiliza com o ODF 1.1. Este documento está sendo traduzido pela ABNT para atualizar nossa norma Brasileira.
3. O ODF 1.2 está em fase final de aprovação pelo comitê que o desenvolve (OASIS) e deve ser enviado à avaliação da ISO ainda este ano.
4. O OpenXML foi aprovado internacionalme nte pela ISO em um processo absurdamente obscuro e cheio de histórias mal contadas (como a que se pode ler na matéria), não está até hoje 100% funcional, pois seus erros mais graves ainda não foram totalmente corrigidos, e a versão "strict" (ou pura) do padrão ainda não foi implementada por ninguém. As ferramentas de mercado que suportam o OpenXML suportam a versão ECMA do padrão, a versão com mais de 3 mil defeitos técnicos que entrou no processo da ISO.
5. Todos os leitores de documentos ODF 1.2 são automaticamente compatíveis com ODF 1.0.
Como fica claro, quem NUNCA entendeu nada aqui é o Sr. Renato S. Yamane, um troll mal informado e mal intencionado !
São pessoas como ele que fazem com que empresas vejam nosso país como uma república de bananas repleta de incompetentes em tecnologia que guiam suas vidas e decisões por press releases bem escritos !
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