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18/06 - Uma audiência pública deve ser realizada no dia 2 de julho.
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Interessados têm até 5 de julho para se candidatar. Inscrições do evento iniciam em 10 de julho.
Apresentação será em 4 de julho. Será a quinta transmissão online desde 2012.
Encontro Latidudes e Atitudes ocorre de 27 a 29 de agosto no Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo.
Interessados em participar da seleção têm até 3 de agosto para fazer a inscrição.
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edição 91 - maio 2013 |
Cultura - Na trincheira do pensamento

O livro “Da Diáspora - Identidades e mediações culturais“ reúne textos de Stuart Hall, jamaicano radicado na Inglaterra, teórico das identidades culturais na modernidade tardia, com foco especial na dispersão e mistura do negro em outras culturas. Traz uma entrevista em que o pensador relata sua própria experiência e o que significou “para um caribenho negro como qualquer outro” conseguir escrever “sobre e a partir desta posição”.
Cristina Chacel
“De onde vocês tiraram esse bebê coolie?”.
A reação de espanto da menina, ao olhar, pela primeira vez, o irmão recém-nascido acomodado no berço, traduzia a dimensão do estrago que a condição colonial produzira na identidade essencial de seu povo. Estavam no ano de 1932, na Jamaica, então colônia britânica. Coolie era o nome depreciativo usado na pequena ilha do Caribe para designar o indiano pobre, o mais humilde dos humildes. No berço estava um bebê negro. Seu nome, Stuart Hall.
Um dos ideólogos da chamada Nova Esquerda, surgida na esteira da invasão da Hungria pela União Soviética, em 1956, que logrou derrotar o movimento antiestalinista, Stuart Hall é um dos mais importantes intelectuais de seu tempo, conhecido como um dos pais dos chamados Estudos Culturais. Parte de sua história e alguns de seus melhores textos podem ser lidos, em português, no livro “Da Diáspora, Identidades e Mediações Culturais”, edição organizada pela professora Liv Sovik, publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais, em conjunto com a Unesco, em 2003.
A passagem protagonizada pela irmã que acusou sua condição de coolie, por ser o mais negro da família, está nas páginas finais do livro, em “A formação de um intelectual diaspórico”, entrevista concedida a Kuan-Hsing Chen. Ali vamos entender por que a diáspora, termo originalmente usado para designar o movimento migratório dos judeus pelo mundo, mas hoje também associado à dispersão da cultura negra e sua hibridização com outras culturas, é tema central de Stuart Hall. Ao definir-se como “intelectual diaspórico”, avisa Liv Sovic, na apresentação do livro, “Hall escolhe o lugar que o discurso eurocêntrico destina a ele - um lugar de negro”.
Caçula de três irmãos, filho de uma família de classe média fortemente identificada com o colonizador inglês, Hall recebeu uma educação colonial. A mãe dominadora se reconhecia inglesa e branca, embora não fosse nem uma coisa, nem outra. O pai freqüentava os clubes ingleses e levava o pequeno Stuart junto. Não conseguia perceber o quanto não se encaixava naquele mundo. “Os ingleses apenas o toleravam. Eu percebia como eles o tratavam com um respeito que marcava sua inferioridade. Eu odiava aquilo mais que tudo”, diz.
Essa identificação acabaria por destruir a irmã de Hall. Certa feita, ela se apaixonou por um estudante de Medicina que viera de Barbados para a Jamaica. Era um rapaz de classe média. Porém negro. E a moça enfrentou brutal oposição familiar, de tal sorte que recuou e entrou em crise. Nunca mais se recuperou. Não mais saiu de casa. Cuidou do pai e da mãe até morrerem, depois transferiu os cuidados para o irmão mais velho, doente e cego, também até ele morrer.
“De repente, me conscientizei da contradição da cultura colonial, de como a gente sobrevive à experiência da dependência colonial, de classe e de cor e de como isso pode destruir você, subjetivamente”, comenta Hall na entrevista.
Estudar na Inglaterra fazia parte do roteiro familiar. Mas, quando Hall deixou a Jamaica, em 1951, para estudar Literatura em Oxford – “Minha decisão de emigrar era para me salvar” -, não imaginava que jamais voltaria a viver e a trabalhar em seu país. “Aos poucos, vim a reconhecer que era um caribenho negro como qualquer outro. Eu conseguia me identificar com isso. Conseguia escrever sobre e a partir desta posição”.
Esta é, sem dúvida, a força de sua obra. Stuart Hall estuda e pensa o mundo a partir do conflito entre o local e o colonial, mas o faz com o reconhecimento da multiplicidade que só um olhar generoso permite. No artigo “Que ‘negro’ é esse na cultura negra?”, ele mostra a complexidade das condições e pressões culturais. Diz que as etnicidades dominantes são sustentadas por uma “economia sexual específica”, uma “figura de masculinidade específica”, “uma identidade específica de classe”.
Por isso, Hall afirma que a política de identidade essencialista é uma luta importante, mas não necessariamente leva à libertação da dominação. Para ele, esta se constrói em várias frentes, em um território cultural amplificado, que inclui a vida cotidiana, a cultura popular e a cultura de massa. Sobre esta última, não lhe nega o poder de sedução: “O meio mercantilizado e esterotipado da cultura de massa se constitui de representações e figuras de um grande drama mítico, com o qual as audiências se identificam, é mais uma experiência de fantasia do que de auto-reconhecimento”, escreveu ele.
A teoria como forma de luta
Stuart Hall é o que o italiano Antonio Gramsci conceituou de intelectual orgânico, aquele que emana da sua própria experiência, engajado ao seu meio, à sua comunidade. Hall, aliás, dialogou de perto com Gramsci, no entendimento. Sua organicidade, porém, incorporou amplo leque de influências. Pensadores como Marx e Bakthin, Althusser, Hogart e Foucault, Barthes, Durkheim e Hegel.
O intelectual orgânico, diz Hall, “deve saber mais que o intelectual tradicional, estar na vanguarda do trabalho teórico intelectual e, ao mesmo tempo, repassar seu saber para intelectuais fora da academia”. Um dos fundadores do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birminghan, não por acaso Stuart Hall foi seu diretor nos quatro anos considerados mais férteis, até partir para a Open University, atraído pela experiência de implantar um projeto de formação universitária para adultos a distância com ciclos de seminários intensivos.
Hall é um democrata que articula cultura e política. Para ele, o sentido da teoria está no compromisso em formular “estratégias culturais que fazem diferença e deslocam as disposições de poder”, numa permanente “guerra de posições”. “Na Diáspora...” nos oferece um panorama robusto desta reflexão, que converge para a afirmação da multiculturalidade no debate político da globalização.
Da Diáspora - Identidades e mediações culturaisStuart Hall - Organização Liv Sovik
Editora UFMG, Belo Horizonte, e Representação da UNESCO no Brasil, Brasília; 2003.
434 páginas
Preço: R$ 51,00 (www.livrariacultura.com.br) ou R$ 40,00 (www.bancadodaniel.com.br, site assinado por Daniel Krasucki, Banca de livros da ECA-USP).
www.eco.ufrj.br/livsovic – Site da professora doutora Liv Sovik (UFRJ).
www.portalliteral.com.br – Portal Literal. No menu, escolha Diálogos -conversas com Heloísa Buarque de Hollanda; depois, procure “O pensador das diásporas”, no arquivo da seção, para ler uma entrevista com Stuart Hall.


















